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domingo, 21 de março de 2010

Estórias em Maputo (18)

Encurtamento de rotas, chapas a cairem de podre, autocarros insuficientes e constantemente atrasados, vias rodoviárias em estado deplorável, sobretudo após a queda de precipitação, que têm como consequência filas longas de carros, nas primeiras horas da manhã, são alguns dos contrangimentos que marcam o dia-a-dia de muitos compatriotas que, saídos das zonas suburbanas, todos os dias se deslocam à grande town.

A procura de alternativas, por parte de uns e outros, acaba trazendo de volta a primeira geração de chapas. Aquela das carrinhas de caixa aberta sem ou com cobertura em lona ! Se essas «alternativas», até bem pouco tempo se cingiam às zonas periféricas da Grande Maputo, hoje elas entram cidade adentro sob olhar impávido de quem( ?) de direito( ?) para gaúdio dos proprietários de tais carrinhas.

Verdade é que muitos nem sequer estão no ramo dos transportes semi-colectivos de passageiros. Trata-se sim, muitas vezes, de cidadãos particulares que na posse de uma carrinha acabam dando uma mão à vizinhança. O lado bom dessa mãozinha, é que muita gente já não precisa estar fora de casa na hora do primeiro raiar do sol e o transbordo se faz à porta do serviço. O lado mau, evidentemente, são as precárias condições em que os pacatos cidadãos se fazem transportar, mas "fazer mais como"?

Para o proprietário da viatura, tudo são mares de rosas: posto que o negócio se faz no período da manhã e no fim do dia, em que há tráfego intenso, e assim escapa quase "ileso" dos "tipoliças" do preto e branco. O pessoal transportado, das duas uma, ou paga na hora ou no final do mês paga o previamente combinado. O bom de tudo, é que esta novo modalidade não requer a presença do cobrador mal-criado, afinal a malta é da zona e a fila anda pois afinal uma mão sempre lava a outra...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Bofetada de amor

Este mês é dedicado a criança, primeiro pelo Dia internacional da Criança, celebrado a 1 de Junho e pelo dia da Criança Africana celebrado a 16 de Junho. Este mês, tal como todos os outros, deve(ria) ser especialmente dedicado a demostração de afecto por todos que nutrem simpatias pelas "flores que nunca murcham".

Infelizmente, ao invés de se celebrar o mês com pompa e circunstância, so se ouvem relatos de pais que presentearam, os seus filhos com sopapos aplicados vilolentamente por razões diversas. A gestão de problemas pais-filhos é questionavel quando se aplica violência contra as crianças.

Ha quem diga que uma palmadinha não faz mal a ninguém, mas quando essas palmadinhas fazem com que as crianças tenham que ir ao hospital para ser tratadas das mazelas causadas e os seus pais a Esquadra para justificar seus actos, a coisa é muito feia.

Um miudo, sob pretexto banal, ficou na rua durante 15 dias porque seus familiares (tio e mãe) acharam que essa era a melhor solução para castigar o pretenso "pequeno gatuno". O bom do miudo é que nesse entretanto continuou a ir para a escola. Pena é que os vizinhos apesar de o alimentarem, deram uma esteira para que ele continuasse a dormir na rua...

Outro pai, com barba de impor respeito a qualquer um, espancou o seu filho porque supostamente "roubou" em uma loja. Outro pai ainda, fazendo uso da brutalidade de sua força fisica, maltratou a sua filha ao ponto de ser engessada porque "roubou" comida...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Festas dos putos

Alguém se lembra de como eram as nossas festas infantis antigamente? Aquelas em casa, mesmo, em que os adultos ficavam conversando na sala, enquanto as crianças “se acabavam” a brincar por todos os cantos? Sozinhas ou entre si, sem bábás, sem brincadeiras pré-programadas com pula-pula, palhaços, pintadores de caras, carrocel, etc.?

Quando você, como convidado, chegava à porta, ninguém exigia um convite para depois procurar, na lista, o seu nome e de seguida indicar-lhe uma mesa. Na hora do “Parabéns a você”, não eramos obrigados a “play-backarmos” o jingle que o DJ toca: um coro ruidoso e destoado era entoado pelos convidados!

Lembra-se que o corte do bolo era no fim da tarde? Sim, um pretexto para que as luzes fossem apagadas e que na palidez das velas todos olhares se viravam para esse momento mágico. Você se lembra? Nessa altura, os mais corajosos faziam discursos e desejavam longa vida ao aniversariente e até se entoavam os cânticos habituais lá de casa sem receio de envergonhar os babados pápás que tinham convidado o chefe à festa?

Recorda-se? Os humildes, mas preciosos e apreciados, presentes eram entregues ao próprio aniversariante e não amontuados numa mesa preparada para o efeito e que depois fazem o aniversariente nem sequer saber quem lhos tinha ofertado, se você se esquece de lá pôr um cartão? E depois da festinha, não haviam lembracinhas ou brindes! No máximo, dava-se um pedaço de bolo ao mano mais velho que nos tinha vindo buscar?

Pois é, nada que se assemelhe às mega produções que vemos hoje em dia: tudo mudou! Também, até ocasiões que não devem, na minha modesta opinião, merecer tanto salamaleque são pretexto para eventos do calibre de um casamento (esses também ostentivos demais)! Veja-se que uma simples cerimónia de graduação, da creche, que mais não é do que uma despedida, é razão suficiente para merecer um buffet 5 estrelas!

Nós, pais, é que promovemos esses eventos e, o engraçado, é que os nossos filhos não acham a minima graça. Esta nossa atitude, talvez se possa justificar como sendo uma forma de os compensaremos pelas nossas frequentes faltas e, também, sejamos francos, rasgados elogios e palmadas nas costas, pelo sucesso da party, engordam o nosso ego.

Formúlas mais simples e eficazes podem surtir o mesmo efeito e, neste tempo de crise, até um bolo e uns refrigerantes levados à escola ou a creche, têm maior impacto do que festanças em que muitas vezes os miúdos nem sequer conhecem os convidados. Mas, as nossas festas, animavam ou não? Então que tal resgata-las?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Notas sexuais

Nossos professores deveriam estar aí para nos ensinar, não para nos tocar onde não queremos. Eu quero desaparecer do mundo se uma pessoa que deveira me proteger me destrói.”

Professores que tem relações sexuais com suas alunas, cuja consequência é a gravidez precoce e doenças de transmissao sexual, não é assunto novo, talvez não muito frequente ou então pouco divulgado. Talvez não seja frequente e completamente desconhecido que professores há que procuram alunos de sexo masculino para satisfazerem a sua libido. Parece estranho, mas é um assunto real em Africa e quiça em Moçambique.

Em todo o lado, se bem que ultimamente tende a diminuir, devido aos pagamentos por cima do quadro, a figura do professor é de muito respeito. Fazer um favor ao professor, é uma honra para quem o faz. No campo, frequentemente as crianças e adolescentes ajudam os seus professores em suas machambas, na construção da cabana e a carregar os livros de e para a escola que muitas vezes são distantes.

Nas cidades, já nada se faz gratuitamente e com o intuito de honrar o professor: a moeda de troca é o dinheiro, os bens materiais e o sexo. Aliás, honrar um professor pelos seus feitos, como pessoa que contribui para a formação do novo homem, só se faz quando este está a beira da última morada, a 7 palmos da terra, como se diz vulgarmente.

O pretexto usado por professores para justificar a sua atitude pode se encontrar, por exemplo, no seguinte: “as meninas vestem-se de forma provocante. Nem um santo aguenta tanta tentaçao”. Para além da exploração sexual de crianças, que tem como consequencia primeira o abandono escolar, há também os castigos corporais que visam “pôr as crianças na linha”.

Mas os professores, não jogam sozinhos este jogo: os estudantes (rapazes e raparigas) não raras vezes vendem-se ou dão algo em troca de notas para a passagem de classe. Muitas moças tornam-se amantes de professores e não raras vezes garantem a aprovação de muitos da sua turma ou circulo de amizades. Os rapazes, se não dispõe de meios financeiros, põe na berlinda as suas namoradas ou irmãs e a caravana passa.

Como em todos os momentos do exercicio de actividades as atitudes das pessoas não estão isentas de conotações ou apelidos, Notas sexualmente transmissíveis é uma expressão utilizada por crianças, em algumas regiões de Africa, para se referirem a frequente exploração sexual pelos seus próprios professores e resume em si o complexo (sub)mundo que são as relações entre professores e alunos.

sábado, 9 de agosto de 2008

Palco do último sequestro

Ao contrário de outros roubos de que são alvos as crianças nas escolas, desta feita, a intenção não era roubar brincos, pastas, material escolar, lanches e muito menos telemóveis, que os pais e encarregados de educação insistem em fornecer as suas crianças, mas sim engordar a conta bancária com uns chorudos 200.000,00Mt!

Como resultado da odisseia de duas mulheres que meteram-se escola adentro, na 3 de Fevereiro, e de lá saíram impávidas e serenas, durante o intervalo, com duas irmãs gémeas de 7 anos as crianças da cidade de Maputo voltam a estar aterrorizadas com o renascido espectro do rapto de crianças e exploracao de crianças. A grande questão é como ocorreu isso no momento do intervalo?


Conheço o funcionamento da escola alvo deste acto hediondo, por inerência do meu papel de mãe e encarregada de educação. No início do ano, o controle é mais cerrado: os portões são fechados pouco depois do toque ficando apenas a portão principal aberto e que dá acesso à secretaria. Entretanto, do outro lado do muro, estão os vendedores ambulantes com chips, rebuçados, sumos, gelinhos e toda a ninharia comestível, verdadeiras tentações para os nossos filhos que tanto apreciam.


A escola funciona com 4 turnos: 6h30 - 10h30, 10h45 - 14h, 14h15 – 17h30, 17h45 – quase 22h e dispõe de duas entradas que na hora de entrada/saída estão escancaradas! Nos três primeiros turnos, as aulas são para grupos de crianças e adolescentes e o período nocturno é para jovens e adultos. Em todos os períodos há movimento de adultos (pais, encarregados de educação, irmãos, empregados, chapeiros, etc.) que levam e trazem crianças. Logo, não há nenhum controle ou este é realmente difícil de executar por dois guardas num universo de mais de 1000 crianças por turno.


Se a criança não grita ou esperneia para chamar atenção, ou se um coleguinha não comenta com o seu próprio encarregado de educação ou professor (e este toma nota) sobre a presença de um estranho, a criança-vitima passa pela porta acompanhada por um adulto sem nenhum problema, mesmo sendo este um desconhecido. Entende-se portanto que a supervisão de saída e/ou entrada de crianças não é deficitária e como todas apresentam-se fardadas, mais difícil fica saber quem está a entrar ou a sair.


Sabendo-se o quão vulneráveis são as crianças à guloseimas e promessas de brincadeira e/ou passeios, não é muito difícil aliciá-las e de lá sair impune. Urge portanto criar mecanismos de controlo de crianças. O jogo psicológico em casa é que deve reinar para evitar esse tipo de tragédia. Consoante a idade e nível de compreensão, o segredo é falar sempre com as crianças, assustá-las até se necessário for.


Em cada ano lectivo, pelo menos nos dois últimos, pais e encarregados de educação são cobrados, desde o primeiro dia de aulas até ao último dia do mês de Março, senão mesmo no acto de matrícula, o valor de 100,00Mt. O valor cobrado serve para pagar aos guardas que velam pela escola e supostamente pela segurança dos nossos filhos/educandos.


Essa "cobrança", sempre é questionada e há muitos pais que não a pagam cientes de que essa é função do Ministério das Finanças posto que estes trabalham para uma escola logo no Ministério de Educação e Cultura/Estado. (In) felizmente estes pais acabam vergando a vontade da direcção da escola sobretudo quando as crianças vêem o seu nome na lista dos não pagadores lida na sala e pressionam em casa.


Entretanto, nesta bagunça, os professores têm grande fatia de responsabilidade. Infelizmente estes são os primeiros a abandonar os miúdos ao Deus dará saindo antes do toque final da sala de aula com a pressa típica de quem, à guisa de bombeiro, vai apagar algum "incêndio em alguma casa particular" (explicação). No meu tempo, o professor só se ia embora depois da última criança ser levada para casa e, se não aparecesse ninguém, era levado para casa do professor. Belos tempos aqueles, mas hoje em dia com a pedofilia...


Se os professores fossem o que eram antigamente, a tarefa de velar pela integridade física das crianças estaria salvaguardada. Usava-se o cartão escolar como forma de autentificar a presença da pessoa que leva a criança da escola para casa, aliás este é o método que se usa em muitas creches e tem sido um sucesso: não tem cartão? A criança não sai!