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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Estórias em Maputo (32): Manifs et al.

É de conhecimento geral o momento de tensão que a Grande Town e seus arredores vivem nas últimas horas. Caracterizada por cenas de puro vandalismo da coisa pública e privada, barricadas nas vias públicas de maior circulação, destruição de bens alheios, corre-corre em fuga às balas de borracha disparadas por AK47, que resultaram em inúmeros feridos e mortos, Maputo literalmente parou.

No comércio formal as portas mantiveram-se fechadas e a ausência das bancas, do comércio informal, incaracterizaram ainda mais o fuzué habitual que é Maputo. Como consequência, há falta do básico pão, um dos motes da pseudo greve, e, naturalmente, de todos outros produtos de primeira necessidade.

As imagens trazidas pelos media e retratadas nas redes sociais e blogs, mostram o quão caótica é a situação em todas as dimensões. Muitos, como que a aproveitar o momento, para rechear a sua despensa até a crise passar, são vistos na posse de sacos de arroz, caixas de frango ou carapau, e outros bens de consumo. Engane-se quem assim pensa !

Há "manifestantes" que não perdem oportunidade e alargam os cordões da bolsa. Aproveitando-se da confusão, pilham bebidas e de produtos alimentares dos contentores-loja, que florescem nesses locais e revendem-nos a metade do preço ou muito menos, seguramente, ao preço no qual gostariam de ser eles mesmo a comprar. Afinal não é essa a razão da confusão ?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estórias em Maputo (9)

Antigamente, as pseudo-bábás vinham lá da terra. Eram jovens vindas de familias humildes, geralmente vizinhas de algum familiar, cheias de respeito e com profunda gratidão pelos patrões por as terem tirado duma casa em que as vezes faltava um pedaço de mandioca para acompanhar o chá sem açucar. No contrato verbal, com os pais dessas moças, ficava sempre patente que as meninas deveriam continuar os estudos já que lá na vila estavam condenadas a um casamento com o pastor de cabritos...

Muitas dessas jovens, chegadas a grande town, emocionadas pelos feitos novelísticos, vistos durante as ausências da patroa, cedo perdiam a humildade e com a ponta dos empinados e virgens seios, partiam para o ataque ao patrão, ao irmão jovem da patroa, ao empregado do vizinho ou ao guarda do prédio. Breve, trazê-las de lá, tornou-se um investimento de risco para o "estatuto de patroa "de muita mulher. Contudo, a necessidade de ter uma bábá nunca deixou de existir, sobretudo com este corre-corre que é a vida na grande town.

Actualmente, as bábás, de lá ou de cá, têm uma vivência dura: trabalham dia e noite, fins de semana, feriados e folgam 48h por mês, distribuidos por dois domingos. Se labutam para uma mamã madame, dessas que não podem perder nenhum evento, nem faltar a um fútil encontro com as amigas, por conta de um puto chorão, das duas uma: ou as bábás ficam em casa com estes, resumindo a preocupação maternal com um "O patrãozinho está a dormir? Já comeu? ", ou são arrastadas ao evento para que toda a familia possa ver como o rebento cresceu.

Nesses eventos, as bábás devem exercer as suas habituais funções que se resumem ao cuidar do menino, folgando no exercício de outras actividades que só desenvolvem quando estão em casa (lavar a roupa, ser moça de recado, etc.). Como é evidente, nesse dia, por ver por perto a mamã madame e o papá todo enfatado e não me sujes, o menino fica muito fiteiro e dá um valente baile a bábá e, para motiva-la ainda mais, ouve um "leva o Junhinho lá para longe!". Salário que é bom? Não pode ser excepção: é aquela base!

Ah, outra coisa! Para não pôr em causa o "estatuto de patroa" as bábás e outras profissionais que labutam no espaço doméstico não podem ser jovens bonitas, elegantes, vaidosas, inteligentes, empreendedoras... sob o risco de nem sequer serem bábás!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ai de ti!

Tão polémico como tem sido o debate sobre a ponte da Unidade Nacional (?), so se pode falar da Lei contra a violência doméstica. apesar das feridas que levantou, a lei contra a violência foi aprovada pela Assembleia da Republica. Esta foi uma ocasião para ver as mulheres vangloriarem-se de não mais poder sofrer mazelas por parte de seus companheiros. Por seu turno, para os homens, um artiguito para não beliscar a masculinidade destes, face a violencia de suas companheiras foi anexado.

Portanto, aquele que violentar fisicamente a mulher, causando-lhe doença ou lesão que ponha em risco a vida será punido com a pena de dois a oito anos de prisão maior. A lei estabelece ainda que todo aquele que ofender voluntária e psiquicamente, por meio de ameaças, violência verbal, injúria, difamação ou calúnia a mulher com quem tem ou teve relação amorosa duradoura, laços de parentesco ou consanguinidade ou mulher com quem habite no mesmo tecto será condenado na pena de seis meses a um ano de prisão e multa correspondente.

Se a ameaça tiver sido com uso de instrumentos perigosos, a pena será de um a dois anos de prisão e multa correspondente. No que diz respeito à cópula (relações sexuais) não consentida fixa que quem a mantiver com a cônjuge, namorada, mulher com quem tem uma relação amorosa duradoura, laços de parentesco ou consanguinidade ou mulher com quem habite no mesmo espaço será punido com pena de seis meses a dois anos de prisão e multa correspondente
.

Ainda restam duvidas? é caso para dizer: ai de ti, homem! Ai de ti!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Acorrentados

A demência e outros males, muitas vezes genéticos, leva a que familias tomem medidas extremas para, segundo elas, salvaguardar a integridade fisica(?) dos doentes. Casos de crianças e adultos que são acorrentados por seus proprios progenitores/familiares so chocam pelas imagens deploraveis que são mostradas nos jornais televisivos mas são uma crua realidade na nossa sociedade.

Algumas vezes, pretendo acautelar-se de maus espiritos que se apossessam dessas pessoas, para além de acorrentados, alguns portadores de deficiência mental ou congénita são enclausurados em locais de dimensões reduzidas, como se de animais se tratassem, onde não raras vezes fazem as necessidades fisiologicas e são alimentados.

Mas de quem é a culpa? Desses pais/familiares que acreditam no sobrenatural ou do Estado que não oferece condições para que pessoas com tais problemas possam ter uma vida aceitavel? Continuarão estas pessoas a ser acorrentadas e os acorrentadores presos temporariamente pelo seu acto "cheio de boas intenções"?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Peregrinos de 6a feira

5ª feira, 22h, no passeio da antiga pastelaria Colmeia, corpos deitados no chão, cobertos por capulanas, mukhumes e/ou papelão dormem indiferentes ao burburinho dos carros e transeuntes que por ali passam. Serão os famosos molwenes? Rapidamente encontro a resposta: não, não são não.

São cidadãos moçambicanos que habitam em bairros da periferia e que tudo fazem para estarem no centro da cidade nas primeiras horas do exercício comercial. Quererão eles fazer compras semanalmente? Imperativamente à 6ª feira? A resposta também é redondamente negativa. Trata-se dos peregrinos da 6ª feira, os mendigos.

A Comunidade comercial muçulmana moçambicana tem oferecido todas 6ª-feiras, num acto de fé, esmola ou pão aos pobres. Este é acto é de louvar tendo em conta que muitos moçambicanos há que não conseguem ter na sua mesa um pedaço de pão. No entanto, esse gesto também é de reprovar pela forma como é feito pois fica a parecer que o objectivo único da comunidade é dar e não dar a quem realmente precisa.

Acredito que muitos me cairão em cima pela forma como exponho o assunto, mas é como o vejo: jovens com capacidade para andar rapidamente e com forças nos braços para trabalhar é que recebem o pão das 6ª. Infelizmente, muitos aproveitam-se dessa caridade e “passam a perna” aos que realmente merecem e precisam: idosos desamparados, portadores de deficiência, doentes crónicos, etc.

Preocupa-me sobremaneira a forma como os mendigos, sobretudos os idosos e doentes crónicos são tratadoss, corrijo, NÃO são tratados. Estamos em momento pós-eleições e não vislumbrei, em nenhum partido/candidato, preocupação para com esta camada social: será porque estes não tem cartão de eleitor? Será porque estes parecem não estar conscientes dos seus direitos, deveres e obrigações?

Que experimentem dar um prato de comida por cada refeição do dia, um local seguro e de descanso, espaço de lazer e de actividades criativas e assistência medicamentosa, terão nos peregrinos de 6a feira (mendigos, idosos e doentes crónicos abandonados) eleitores fiéis nos próximos pleitos eleitorais!


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Infortunios dos embondeiros da historia

Joana, 82 anos, enfermeira-parteira de profissão, mãe de 4 filhos (3 com formação superior e com cargos de chefia), confinada numa cadeira de rodas por ter as duas pernas amputadas, em menos de dois anos, como consequência de diabetes, vive sob cuidados de uma filha alcoólatra e que se prostitui para suster seus vícios.

Dimene, idade indeterminada, antigo guarda predial da era colonial até um pouco depois das nacionalizações, 12 filhos e 34 netos, proprietário de várias parcelas de terra, usurpadas por seus próprios filhos, na Catembe, abandonado no hospital aquando de uma AVC quase fatal.

Julieta, camponesa, idade indeterminada, encurvada pela idade e pelo reumatismo, vive sozinha numa cubata em acelerada degradação em Chidenguele. Apesar de tudo e dos muitos anos de vida, estima-se mais de 80 anos, vovó Julieta enfia linha na agulha sem hesitação.

Com a chegada da terceira idade, alguns problemas de saúde passam a ser mais frequentes, e outros, incomuns nas fases de vida anteriores, começam a aparecer. A estes problemas acrescentam-se outros como a solidão, o abandono familiar e comunitário, a violência, a pobreza extrema, a viciação de documentos e o roubo de bens ou propriedades, acusações infundadas de feitiçaria.

Como se não bastassem todos os problemas, acima descritos, e outros mais, os idosos estão a enfrentar um chocante episódio: são obrigados a tornarem-se pais substitutos e cuidar dos netos, que são órfãos da SIDA ou então a tornarem-se filhos ou dependentes de seus próprios netos, muitas vezes menores de idade.

Estas estórias são do conhecimento geral e não constituem novidade alguma mas parece que, infelizmente, a sociedade tornou-se imune ou se calhar insensível à condição degradante dos imbondeiros ou bibliotecas vivas da nossa história: os idosos. Ninguém é mais ou menos responsável por esta situação do que essa própria sociedade, muito embora haja quem insista em apontar o dedo ao Governo.

O Governo delineia promissoras politicas que versam sobre a pessoa idosa, ainda que não passem meramente de papéis, e nessas politicas ou planos não se omite a presença e o papel das famílias e da comunidade no seu todo.

Os nossos idosos, ao longo de suas vidas, lutaram para ter e dar uma vida condigna aos seus filhos e esqueceram-se ou não sabiam que deviam poupar para os anos que se avizinhavam pois, na cultura africana, quando adultos os filhos devem cuidar dos pais.

É degradante ver, pelas ruas, cortejos de idosos, antes pujantes, hoje mal vestidos, imundos e evidentemente esfomeados, reduzidos à condição de mendigos, alguns até com uma mísera reforma, sendo que muitos deles são filhos de pessoas com capacidade para deles cuidarem ainda que pela via da contratação de um empregado.

Hoje, os poucos idosos que vivem condignamente ou o são porque durante a juventude e maturidade souberam guardar algum ou porque os valores de familia foram fielmente guardados pelos seus filhos. Muitos outros idosos que têm vivido condignamente, os dias que lhes restam, o têm feito pela via das ONG’s e instituições religiosas.

Certo é que a esperança de vida dos moçambicanos baixou a ponto de nem sequer termos a possibilidade de “arranhar” a 3ª idade. O dia do idoso é uma ocasião única para reflectirmos sobre nossos actos hoje e a sua repercussão depois de amanhã. Que velhice queremos para nós?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fazer a diferença

É de pequeno que se torce o pepino”! É, talvez, seguindo esta mítica frase que os pais ensinam, desde cedo, os seus filhos a serem humildes e a saberem partilhar o pouco com os outros e, geralmente, mesmo nas mais humildes casas, sempre reina a máxima “onde come um, comem dois”.

Antigamente, quando entrar numa loja de roupa era um exercício impossível diariamente, os nossos parcos bens (roupas, sapatos, brinquedos, livros, etc.) passavam do mais velho ao mais novo ou para um primo ou vizinho com muito menos posses ainda. É verdade que o coração se condoía com os cuidados dados as nossas preciosidades, mas, a hábito familiar e os momentos de crise assim obrigavam!

Com esse espírito fomos crescendo, a saber dar aos outros sobretudo aos que nada têm. Quando mais velhos, alguns passaram a fazer parte de associações ou grupos em que se solicitava, por exemplo, a doação de sangue. Gestos simples, mas heróicos aos olhos dos que nada têm!

Hoje, nos semáforos, nos passeios ou nas esplanadas dos restaurantes, algumas vezes até na soleira das nossas portas, somos confrontados por mendigos ou pseudo mendigos e muitas vezes, ainda que a contra gosto, soltamos algumas moedas, um pedaço de pão, uma caneca de açúcar, como que a calar a nossa consciência enriquecida pelas lições familiares.


A Rede Miramar, estreitamente ligada à IURD, lançou uma campanha que visa a recolha de bens não perecíveis e que serão doados a instituições escolhidas, aquando da celebração, a 31 de Agosto, do Dia de Fazer a Diferença. Está efeméride, que já é tradicionalmente difundida pela rede-mãe, a Rede Record, e que tem como órgão gestor o Instituto Ressoar, é também benvinda por cá sendo que a ABC (Associação Beneficente Cristã) deve velar para que tudo seja devidamente encaminhado.

Dias atrás, como forma de angariar tais bens, teve lugar um concerto, em Maputo, em que cantores da praça deram o ar da sua graça em indisfarçável play back do qual por vezes a própria voz destoava. O público, esse fez-se presente, quer pelo baixo custo do bilhete, que correspondia a um quilo de alimento, quer pela oportunidade de poder ver in loco as estrelas da actualidade e não só.

A iniciativa é uma fresta para que nós, bloggers e visitantes, façamos algo realmente visível pelos que nada têm. A essa ideia já tinha sido avançada aquando da celebração do 1 e do 16 de Junho. A corrida contra o tempo, nessa altura, foi o maior vilão, mas nunca é tarde: vamos fazer a diferença proporcionando alimentos e brinquedos às crianças do Infantário Primeiro de Maio?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Chapa escolar

2ª feira, número de crianças presentes na sala de aulas: 5! 3ª feira, número de crianças presentes na mesma sala de aulas: 9! Bom, este é apenas um exemplo do que se viveu na primeira semana de aulas, após as férias intercalares, numa escola primária pública da Polana Cimento, onde estuda a minha filha. Os motivos da ausência de alunos, numa turma com 48 crianças inscritas não é outro que a falta de um transporte especifico: o chapa escolar.

É por todos sabido que o transporte urbano, e não só, é o calcanhar de Aquiles de muitas famílias. Mas sendo honestos, grande parte da culpa desta situação, sobretudo para com crianças no ensino primário do primeiro e segundo ciclo/grau, é dos próprios pais que preferem enviar seus filhos para escolhas longínquas em detrimento das que existem nas próprias zonas de residência. O exemplo claro disso, está descrito acima.

Na perspectiva de querer minimizar essa preocupação, muitas famílias optaram por entrar na onda do chapa escolar. Chapa escolar sim, porque muitas vezes trata-se de um mini bus licenciado para o transporte semi-colectivo de passageiros e que por conseguinte é desviado de sua rota para o beneficio das crianças e adolescentes estudantes longe de casa e do próprio transportador.

A verdade manda dizer que algumas escolas privadas dispõem de uma rede de transporte para os seus alunos. No entanto, nas escolas públicas, que acolhem grande universo da população escolar, isso nem em sonhos ocorre.

Os pais, cientes de suas responsabilidades de levarem os filhos à escola, entregam-nos a pessoas, algumas vezes sem escrúpulos e que não olham meios para atingir os fins: o mais importante é ganhar dinheiro fácil descurando da segurança das crianças.

Poucos são os transportadores que celebram contratos por escrito, basta apenas a palavra e o que se assiste é que crianças que saem da sala de aula e vão directo a casa-de-banho, por exemplo, são literalmente “esquecidas” pelos transportadores. As vezes a carrinha não aparece ou aparece atrasada com as consequências que disso advém.

Reconheça-se aqui também a culpa dos pais que não exigem a celebração de contratos e logo não podem questionar as atitudes e/ou não cumprimento do acordado com os transportadores! Alias, o facto de não terem celebrado contratos escritos levou a que muitos chapas não se apresentassem à porta das crianças nos primeiros dias de aula e a consequência é o que se viu: salas vazias!

O mais grave, são as deploráveis condições nas quais as crianças são transportadas: sem acompanhamento de uma figura com autoridade dentro do próprio carro (o cobrador, esse, está com o braço na janela no papo com o motorista) e estão empilhadas umas por cima das outras. Felizmente a variada oferta de rotas satisfaz a procura e os preços, esses oscilam entre os 700 a 1000 Mts/mês consoante a zona e/ou o estado do carro: luxo ou reles. Se formos a fazer as contas do mês, os chapas escolares só saem a ganhar pois trabalham menos tempo e tudo é quase lucro.

Se levarmos em conta que cada carro de 15 lugares leva 20 crianças e que existem 3 turnos no fim do mês o transportador tem entre 42.000 e 60.000 Mt. Se, por ventura, incluirmos o curso nocturno o que significará 18 pessoas, a cifra aumentará mais um pouco sabido que a tarifa varia entre 1000 e 1200 Mts/mês, resultará numa renda entre 18.000 e 21.600. Portanto, em cálculos aproximados, estaríamos a falar de qualquer coisa como 42.000 a 75.000Mts, combustível contabilizado, isto só e apenas para os carros de 15 lugares!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Do armário para os palcos

Sair do armário”, é uma expressão usada para designar pessoas que assumem publicamente a sua homossexualidade ou bissexualidade. No entanto, na nossa sociedade, essa “saída”, não é pacifica e nem reúne consensos: há claramente muita gente contra e pouquíssimos a favor [talvez eles mesmos e quem, conformado, tem na sua família alguém com essa inclinação sexual].

No nosso país, muitas dessas pessoas têm capacidades para, por exemplo, adoptar crianças e muita vontade de se casar, mas não podem. Se namoram na rua, ou são alvos de chacota ou de olhares condenatórios: a sua “liberdade” amorosa tem que se enclausurar entre quatro paredes e que dela nada transpire.

Corre pela boca do povo e tive a oportunidade de testemunhar pela telinha, na 2ª edição do programa de entretenimento “Show de Talentos”, da STV, com o patrocínio da “Tudo Bom”, a performance da curiosa dupla que se auto intitula La Biba e La Santa.

El fenómeno La Biba e La Santa concorre na categoria DragQueen, uma verdadeira inovação no entretenimento moçambicano, que designa homem que se este com roupa de mulher (que também se pode designar DragKing ou Genderqueer) é um verdadeiro caso de sucesso.

Na edição em referência, para além dos rasgados elogios do júri (composto por Garrido Jr., Maria José Sacur e Jorge Vaz) e das notas elevadas (9-9-9, sobre 10), arrancaram, pela sua performance, efusivos aplausos da multidão presente na Catedral das Artes, vulgo Cine África. Consta-me que, na 3ª edição, a pontuação também foi conveniente ao espectáculo apresentado (8-9-9).

Os DragQueen são conhecidos pelos seus exageros no vestir, nos modos, na maquilhagem e no estilo cómico de se apresentar e geralmente se mascaram como sendo do sexo oposto, fantasiando-se com o intuito geralmente profissional de fazer shows ou apresentações, geralmente no meio GLBT, de que fazem parte.

Embora na maioria das vezes os DragQueens ou DragKings sejam homossexuais (gays ou lésbicas), essa orientação sexual nem sempre é a norma: podem ser bissexuais, assexuais e até mesmo heterossexuais.

O ascendente sucesso de La Biba e La Santa é invulgar, tendo em conta que, em geral, a homossexualidade é mal vista na nossa sociedade, sendo portanto alvo de preconceito e de discriminação, isto se nos guiarmos pelo que a dupla nos mostra: que são realmente gays [pelo menos o nickname Biba é claramente sugestivo dessa tendência].

Uma forma tão expressiva de manifestar tendências sexuais, contrárias ao “aceitável”, nunca foi tão visível, se pusermos de lado o Caso Engrácia/o que deu a cara em jornal, em debate televisivo sobre a sua tendência sexual e, recentemente, foi indicada/o como a pessoa que roubou e divulgou o famoso video do Caso Ziqo.

Não se trata apenas da “saída” de duas pessoas, outrossim, La Biba e La Santa, mesmo antes do “Show de Talentos” já manifestavam publicamente a sua forma de ser e de estar. Subentenda-se portanto que, pelo menos, no seio da família, amigos e vizinhos, a dupla (em conjunto ou individualmente) assim tem vivido e se imposto pela sua opção.

La Biba e La Santa, mesmo que não vençam o concurso, “saem” pela porta grande porque a vontade do povo, manifestada pela ditadura do voto, assim manda. Ganha a STV e a “Tudo Bom” pois a dupla está a fazer furor, o que aumenta e em muito os níveis de audiência, e acima de tudo ganham os gays, lésbicas, bissexuais e travestis/transexuais moçambicanos pois a sua saída do armário já não será por uma fresta.
Vai votar? O voto é secreto e ganha-se uma pipa de massa!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Fora da mira

Rios de dinheiro são gastos em campanhas visando combater a doença do século, mas aparentemente os efeitos só se fazem sentir nos bolsos fundos dos que estão a frente de tais campanhas. Os números falam por si:

- Taxa de prevalência do HIV/Sida na província de Maputo: 2001: 16%, 2002: 18%, 2004: 20.7%, 2007: 26%!

- Taxa de prevalência por zonas a nível do país: Zona Sul: 21%, Zona Centro: 18%, Zona Norte: 9% e a Nível Nacional: 16%!

- Até ao ano de 2006 estimava-se em 500 novas infecções por dia em todo o país. Em 2007 estimou-se que cerca de 1.6 milhões de pessoas viviam com o vírus HIV, podendo em 2010 aumentar para 1.9 milhões de pessoas!!!

Dentro desta estatística, estão certamente incluídos alguns excluidos das campanhas de publicidade, que no entanto tem uma vida sexual activa ou expõem-se a infecções por desconhecimento, os portadores de deficiência (invisuais e surdos/mudos) e idosos, pois a sua vida não acaba com a reforma no trabalho e/ou na menopausa.

Pelo que noto, até ao presente, as campanhas tem sido a favor da prevenção entre jovens “normais” onde se promove o uso do preservativo e/ou à abstinência sexual. De prevenção inclusiva (que abrange todos grupos sociais) e prevenção positiva (para os infectados, sobretudo nesta altura em que os hospitais-dia, que promoviam palestras nesse sentido encerram às catadupas) pouco ou nada se vê.

Urgem, portanto, campanhas de sensibilização e combate a pandemia do século que incluam toda uma Nação sem exclusão de pessoas que aos olhos da lei estão cobertas pelos mesmos direitos e deveres de qualquer cidadão moçambicano.


Fonte: Relatório do Núcleo Provincial de Prevenção e Combate ao Sida de Maputo e Relatório das Nações Unidas sobre HIV/Sida, Sessão Especial de Janeiro de 2008