segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Lanche escolar

Nos tempos áureos da minha infância escolar, no tempo das vacas magras, o meu lanche consistia numa toranja ou em uma laranja amarga. Com o passar dos tempos, quando aparentemente tudo se estava a recompor (pelo menos na minha mente infantil), o lanche escolar passou a ser pago pelo Estado: arrufada com leite! E se se era chefe de turma ou seu adjunto, para não falar dos professores (prova evidente de que a corrupção vem de longe) ...

Lembro-me também, com certo saudosismo, que a primeira maçã, a primeira pêra-maça e a primeira fatia de queijo que comi na vida, foram pela mão do Estado. Manhavamos as arrufadas escolares com um queijinho amarelinho made in USA vindo em camiões-cavalo.

Hoje em dia, não só o transporte e a segurança são preocupação dos pais e encarregados de educação: o que os petizes vão “lascar” no intervalo das aulas, muitas vezes a primeira refeição do dia, é outra contínua dor de cabeça. E isto num cenário em que muitas crianças condicionam a sua ida a escola à existência do lanche escolar nas suas pastas, ainda que seja um xiguema de pão seco, e com toda razão, afinal “saco vazio não fica em pé”.

Está certo que alguns programas, que visam incentivar a ida de crianças a escola, proporcionam um lanchito aos miúdos (procurar um Olhar de Esperança). Mas é uma gota na imensidão do oceano que é o ensino no primeiro ciclo em Moçambique.

Na procura de alternativas para incentivar as crianças a irem a escola e para os manter com energias para aprenderem o Abêcêdê, alguns pais organizam-se e mensalmente fazem um rancho só para o lanche escolar: sumos, achocolatados, bolachas, biscoitos, refrigerantes, etc. Breve, as próprias crianças trazem de casa alimentos industrializados.

Para outro grupo de pais, a solução é dar uma moeda para que as crianças comprem algo nas mesas dos vendedores ambulantes que prontamente e pontualmente se instalam na entrada das escolas (uma brecha para a insegurança crescente nestes locais) comum leque variadíssimo de pronto-a-comer para todos os bolsos. Pipocas, chips, bolachas, rebuçados, sumos e no Verão, gelinhos.

Dentro das escolas estão as cantinas, vulgo lanchonetes, que oferecem, como toda indústria alimentar da actualidade que não para de crescer e a cada dia lança novos produtos, lanches calóricos (hamburgueres e hot dogs fritos e refritos infindáveis vezes na mesma chapa gordurenta) e pobres em nutrientes.
Tirar a barriga da miséria, sim. Mas já é mais do que tempo de consciencializar educadores, pais e os próprios alunos sobre a relação entre alimentação saudável e qualidade de vida no futuro. Vamos lanchar como il faut?

18 comentários:

Bayano Valy disse...

olá,
tinhas que nos lembrar dos lanches escolares? bem, acho eu que levantas uma questão deveras importante quase no fim do texto: a saúde nutritiva dos petizes. essa, quanto à mim, deve ser o nosso enfoque. quando se dá umas moedas aos petizes que se pensa que hão-de comprar na rua? têem eles a capacidade para decidir sobre o que comer quando estão fora de casa? noutro dia discutíamos na casa do saiete sobre a questão de higiene alimentar, não é nas barracas à porta das escolas que se compra pão com badjia? serão esses produtos recomendáveis para os meninos?

Júlio S. disse...

Não concordo com a ideia de "crianças condicionam" seja em que contexto for.

Sou dos que fazem um esforço para que as minhas princesas tenham o seu lanchinho, os seus brinquedinhos e o que sinto que elas precisam a cada tempo. Mas, como pai, as crianças não me condicionam no sentido de me chantagear. Nunca lhes ouvi: "sem lanche não vou a escola" nem fazem birra no supermercado para terem mais uma boneca para além das que tem. Tenho lhes ensinado a darem valor ao que tem e a saberem que o pai delas que se esforça, ainda não é o tio patinhas... e, acima de tudo, darem valor ao que conseguem ter pois, do que devem aprender a observar, há meninos nas suas salas que mal conseguem ter pão em casa quanto mais para levarem a escola. Tudo isto é com diálogo, muito dialogo.

Júlio S. disse...

Agora, é evidente que sua nutrição é fundamental, como era para nós nos tempos dos barris de leite na primária. É evidente que a fome desmotiva (mesmo para um adulto) sendo, pois necessário que os pais se esmerrem para que os seus filhos se "motivem". E cadaum faz isto à sua maneira; uns mandam os filhos com a lancheira já com conteúdo e outros dão umas moedinhas o que não é recomendável para uma criança de 6/7 anos, na minha opinião, por tudo que está a volta como o Bayano muito bem se refere acima.

É verdade que nós milhares de vezes lanchamos com pão e badjia, fiosses etc; mas o contexto mudou. Não me lembro de em 85/86/87 - 90 haver tanta cólera e outras doenças como hoje.

Anónimo disse...

Concordo. Acho importante a crianca tomar um bom pequeno almoco, pois o estomago esteve em jejum durante as horas do sono, e um bom pequeno almoco e um bom comeco para o dia, para absorver a materia na sala de aula e para se concentrar. Devemos de oferecer um pequeno almoco saudavel e variado: fruta fresca ou sumo feito na hora, iogurte, pao integral, omelete, etc. Devemos de matabichar como reis, almocar como principes e jantar como pobres. Sempre preparei lancheiras para os meus filhos, eles ainda se lembram com saudade, embora muitas vezes nem comessem o lanchinho e o trouxessem de volta para casa,e, antes de entrarem pela porta adentro, distribuiam pelos nossos caes. Um abraco da Gloria

Jonathan McCharty disse...

Dos "lanches escolares" me lembro da extrema solidariedade entre toda a malta, mesmo ao bom jeito "africano"! Mas aqueles que so' queriam receber dos outros e nunca partilhar o seu, tambem nao faltavam. Bons momentos, esses da "primaria"!

Ximbi,
Focas um assunto que normalmente ninguem se preocupa: a questao nutritiva dos nossos petizes! Eu por exemplo fico "por aqui", com essa estoria de "chips" que so' inundam as nossas criancas com "estabilizantes e conservantes"!

Gloria!
Imagino que os seus filhos ja' estejam crescidinhos! Mas acho que podias te-los ensinado nessa altura que fariam melhor figura se partilhassem o lanchinho que nao queriam comer, com aquele colega mais necessitado, que em qualquer turma nunca falta! Just an opinion!

Jonathan McCharty disse...

O Julio parece que esta' com mao de ferro sobre as suas menininhas, hehe! E' assim mesmo: e' preciso incitur nelas um alto sentido de responsabilidade! E' a unica maneira delas virem a superar os feitos dos pais!

Avid disse...

Xim,

De pequeno se torce o pepino e que o caminho para a vida começa nas mais pequenas coisas da nossa infância. Concordo com o Jorge S. quando fala da importância do dialogo em casa. Torna-se difícil proibir isto ou aquilo quando muitas vezes o mau exemplo vem de nós.

Trabalho longe de casa e é costume trocar as refeições caseiras pelos lanches rápidos do café da zona e normalmente o lanche da minha princesa é também comprado por várias razões: Falta de tempo, excesso de oferta dos tais biscoitos e chips com cores e sabores que arregalam os olhos da criançada, despreparo quem fica encarregue de levar a princesa a escola para preparar algo mais nutritivo, menos calórico e consequentemente mais saudável... Nos poucos dias que estamos em casa o que prevalece, concerteza é o dialogo e o aprendizado que normalmente termina dentro de casa.

Tenho visto exemplos pelas revistas e pela TV de escolinhas que incorporam no seu programa actividades que tornem as principais activistas nas suas formas de comer. Ex: Elas com a ajuda de um professor plantam e colhem o que posteriormente será consumido na escolinha e apreciado com muito mais vontade pelos petizes. Outra forma é usar formas criativas de misturar as cores dos alimentos naturais como forma de agradar os olhos das crianças da mesma forma que o fazem os tais biscoitos e bolachas manufacturados. Mas isso claro nas nossas escolas, é quase uma utopia.

Resta-nos tentar equilibrar o certo e o “menos”certo no que concerne a alimentação e ao lanche escolar dos pequenos. Afinal, somos aquilo que comemos... e o que ensinamos a comer...
Bjs meus

X!mb!t@nE disse...

Lembro-me sim, Bayano. Tenho filhos em idade escolar e, ja sabes, temos que nos preocupar. Entao porque nao chamar atencao aos outros?

Concordo com o que dizes e aceito de mao aberta as questoes que colocas: também sao minhas.

PS: Foram a casa do Saiete é? Me "minharam"?

X!mb!t@nE disse...

As criancas condicionam sim, Mutisse. Ha quem vergue diante disso, felizmente nao é o nosso caso, nao é?

Assino embaixo no teu comentario seguinte

X!mb!t@nE disse...

Pois, mana, o pequeno-almoco deve ser a alavanca e a forca para o inicio de uma nova jornada. Mas, mana, a quem nao consiga ter essa refeicao ou se a tem, é a primeira e única do dia!

O Governo devia apostar no lanche escolar!

X!mb!t@nE disse...

É, Jonathan, bons tempos. Quando a solidariedade era solidariedade sem precisar haver uma catastrofe que o justifica. Temos sim que nos preocupar com o que os nossos filhos comem senao ficam subnutridos ou "sobrenutridos"

X!mb!t@nE disse...

"Resta-nos tentar equilibrar o certo e o “menos”certo no que concerne a alimentação e ao lanche escolar dos pequenos. Afinal, somos aquilo que comemos... e o que ensinamos a comer...", essa é/ deve ser a essencia da nossa preocupacao. Bjus meus

Chacate Joaquim disse...

Olá Xim! espero ter chegado a tempo, é assim, as crianças tem algo que não consigo explicar, por exemplo a minha filhinha mais velha gosta de Feijões, batatas etc, significa que outros pratos que não fazem parte dos gostos dela mesmo que nós saibamos como pais do seu valor nutricional é uma guerra para ela comer! no meu caso a arma tem sido "come para ir para casa da vovo" aí sim vai se esforçar atém onde for preciso. este desnvolvimento todo para dizer que há vezes que não se trata de chantagem Júlio S. é o próprio método que está em causa.

Por exemplo, gostaria de saber o que júlio S. faz quando uma das sua filhas perde apetite como estímulo? logicamente procura algo que ela gosta se referir a ela em troca do esforço que vai fazer para comer! ném?

Indo para escola, as crianças até ganharem gosto pela escola há muito trabalho a desenvolver porque estudar por exemplo não é o mais importante se comparado com jogar video game! aqui o importante é condicionar o jogo pelo estudo e o exemplo serve também para a sua filha júlio S.que não olha para o video game como algo que possa substituir escola depois de estudar ela vai exigir "Pai ja estudei posso jogar"? falando nisso, uovi dizer que há uma cantora Moçambicana que os Pais eram como Júlio S. a condição para a filha ser cantora era concluir o curso superior assim ela fez! concluiu o curso troxe o diploma para casa depois partiu para o cantico... hehehe... portanto o importante é criar gostos que não sejam epicenos na educação dos filhos. Aí os professores, Pais, religiosos e não só devem exercer o seu papel na educação nutricional e o perigo que alguns alimentos representam apesar das crianças gostarem ensinar a ter boas opções concordo com a autora do post.Bjs, obrigado por esta Ximbita.

X!mb!t@nE disse...

Hiii, e esta agora, Chacate? Chantagem emocional para que as criancas comam, nao é? Creio que nao ha outra saida que nao essa. Quando os putos nao gostam dee algo, preferem até nem comer

Chacate Joaquim disse...

Xim, É ai onde se situa o nosso ponto de descordia porque nem a Xim, muito menos o Júlio não nos propõe saida nesses casos! olha, tenho acompanhado alguns trabalhos de Psicólogos e Nutricionistas em alguns momentos são obrigados a desenharem um gato ou um coelho com o alimento em causa acrescentando cenoura (olhos), tomate (nariz),atum como pelos do animal só para estimular a criança a se alimentar há alguma chantagem emoncional ai? repito, não se aconselha usar métodos agressivos ou promíscuos na educação infantil. infelizmente não tenho dom nem me esforço a ser talentoso na síntese mas este tema me interessa bastante peço para que aprofundemos o debate e (re)leiam criticamente os comentários de cada um de nós sobretudo os meus.

X!mb!t@nE disse...

Chacate, nem sempre posso trazer soluções para as questões que coloco. Não sou expert em nada, pretendo aqui também aprender convosco.

Pessoalmente, quando tenho essa situação, prefiro não entrar em choques com os miudos. Por exemplo, a menina nao gosta de salada, o pequeno gosta. O pequeno nao gosta de cacana, a mana ama. O que fazer?

Criar condições para que toda a aldeia esteja contente. Assim, faz-se cacana, que a princesa gosta e um bocado de frango para o principe. Todos ficam contente, eu incluida porque sei que estao de bucho cheio!

Chacate Joaquim disse...

Não é trazer soluções Xim, há sempre uma ideia. Hehehe!... é Mãe mesmo espertinha heem!... mas há vezes que não consegue trazer 2 ou 3 tipos de pratos a mesa Xim! o ideial era tentar uniformizar os gostos, não é verdade?

X!mb!t@nE disse...

Claro que sim, Chacate! Quando as condicoes nao estao criadas faz-se o que ambos gostam: caril de amendoim e todos ficam contentes