terça-feira, 23 de setembro de 2008

Biscatos, tricatos ou Xitique?

Que nenhum salário é suficiente, toda gente sabe e brande aos altos berros sempre que tem oportunidade. Que, para facturarmos mais algum, temos que nos matar em fatigantes e condenáveis turbismos de vária ordem que vão de biscatos a tricatos, também todos sabem.

É também de conhecimento geral que nem em todas as áreas de trabalho é possível facturar mais algum pois as margens de manobra são inexistentes (por exemplo, no trabalho doméstico, de guarda, de prestação de alguns serviços comerciais ou bancário) e que no final rendem quase nada senão muito cansaço e stress.

Curiosamente, ultimamente, pessoas de poucas posses têm conseguido construir habitações próprias com material convencional. Neste grupo, vinca-se a presença de mulheres (solteiras, divorciadas e viúvas) que, para além de assegurarem o estudo de seus filhos, têm lutado por ter uma habitação condigna e humildemente mobilada.

Sabe-se, e muito bem, que, apesar de se dizer que “a terra é propriedade do Estado”, ter um terreninho hoje em dia custa os olhos da cara do pacato cidadão moçambicano. Logo, pode-se concluir que os moçambicanos vivem de milagres ou, então, fazem milagres. Mas onde arranjarão as moçambicanas dinheiro para tais empreitadas?

O xitique tem sido a solução de muitos dos problemas pessoais como é o caso da construção de uma habitação, ainda que modesta, sobretudo do lado das mulheres. Professoras, dumba-nengueiras, mukheristas, empregadas domésticas, secretárias, empresárias, funcionárias bancárias, várias outras pessoas e de escalões sociais distintos, têm encontrado no xitique a forma de conseguir melhorar a qualidade de sua vida.

O xitique é um sistema de entreajuda e funciona de forma simples: um grupo de pessoas organiza-se, determina os valores, os períodos de cobrança ( de 1 a 5 de cada mês) e a forma de pagamento (semanal, quinzenal ou mensal). Se por exemplo existe um grupo de quatro pessoas (A, B, C e D) e se decidem pelo pagamento de 500Mt mensais então no 1º mês A acrescentará aos seus 500Mt mais 1500Mt. No mês seguinte, e outros subsequentes, recebem B, C e D.

xitiques com objectivos indeterminados, ou seja, a aplicação do bolo não é direccionado para um fim preciso, cada um é livre de fazer o que melhor lhe apraz com o dinheiro e há também xitiques com finalidades claras e inalteráveis, conforme o projecto que o criou:
  • de poupança (para crianças valor que vai para a poupança ou compra de algo em beneficio das crianças);
  • de bens: loiça ou de panelas, de capulanas ou de roupas de cama, de electrodomésticos (ferro de engomar, micro-ondas, geleira, etc.);
  • de casamento ou de família, que visam ajudar no momento de alegria e de tristeza;
  • de txiling: amigos quotizam valores para que no final de cada mês possam viajar ou organizar festanças entre eles;
  • e, recentemente, de cimento que reagrupa outros tipos de material de construção.

O xitique está tão enraizado no nosso seio quanto o número de contas bancárias existentes, pelo menos no lado feminino. E, uma coisa é certa, tendo em conta que, o Fundo de Fomento para Habitação só satisfaz a alguns e poucos, o xitique é uma garantia de que Moçambique está a crescer.

No entanto, o xitique não é apenas prerrogativa dos habitantes da cidade de cimento. No campo, também se realiza este processo no qual o instrumento de entreajuda é braçal. Por exemplo, camponesas amigas se juntam e vão umas as machambas das outras ajudar na desbravação do mato ou no lançamento da semente.

10 comentários:

Yndongah disse...

Oi primosa,

Essa do xitique de cimento não conhecia!

Importa frisar que esta prática iniciou somente com mulheres, mas hoje, devido ao sucesso, atraiu também o público masculino. Já se vêm aí muitos homens a fazer xitique.

bjs

Jorge Saiete disse...

Ola amiga,
Eu sou um dos homens que fazem xitiki.é que xitiki ajuda a minimizar os efeitos dos custos proibitivos do credito bancario. Xitiki é uma alternativa de acesso ao credito sem juros e sem burocracia.

Yndongah disse...

E com muita festa Jorge!

Já notaram que para além do dinheiro, há espaço para um “social”, com direito a tchim tchim e entrega de mucumes?

Jorge Saiete disse...

Festa é o que não falta Yndogah:
Sempre há um franguito a ser sacrificado e uma 2M a fazer companhia, claro!

X!mb!t@nE disse...

Vejo que por ca o pessoal ja começou a fazer... blogtikes!

Yndonhag, realmente existe o xitike do cimento ou aé mesmo do terreno.

Um grupo junta-se e vai contribuindo para que outros possam comprar um terreninho ou uns sacos a mais de cimento. Enquanto os caes ladram, a caravana passa...

X!mb!t@nE disse...

Bom saber que o amigo Saiete faz xitike. Espero é que seja um xitike em beneficio da familia pois ha uns que fazem-no so para beber

Jonathan McCharty disse...

O ser humano tem uma capacidade incruvel de contornar adversidades. Tenho estado a advogar a intervencao do governo, nesta questao de creditos a habitacao "suportaveis", no nosso sistema bancario. O xitique evidentemente e' uma reaccao a essa lacuna. Como o Saiete diz, sem juros e sem burocracia. Sao esses sistemas paralelos que tem permitido a tem permitido a muita gente por a sua vida a andar! Sera' este um procedimento "made in Mozambique" ou tambem pratica comum noutros lugares?? que tenho

X!mb!t@nE disse...

Humm, nao sei se esta pratica é comum em todo os lugares, Jonathan.

Anónimo disse...

De Ricardo Cossa

Olá Ximbitane
Tenho lido teus comentários noutros blogs e gostei da forma forma como analiza várias opiniões em debate.

Isto convidou-me a procurar ver os teus textos e dar o meu comentário.

Conforme vê, estou lendo as tuas opiniões e constato que escreve tão bem e discute ideias pertinentes. Desde já, os meus parabens.

Quanto ao xitique,esta prática é muito boa, para todos, independentemente da área do trabaho. Mas é necessário seleccionar bem os elementos do grupo senão pode saborear amargura, sobretudo quando for ultima pessoa a receber.

X!mb!t@nE disse...

Agradecida, Ricardo Cossa, e volte sempre