sábado, 9 de agosto de 2008

Palco do último sequestro

Ao contrário de outros roubos de que são alvos as crianças nas escolas, desta feita, a intenção não era roubar brincos, pastas, material escolar, lanches e muito menos telemóveis, que os pais e encarregados de educação insistem em fornecer as suas crianças, mas sim engordar a conta bancária com uns chorudos 200.000,00Mt!

Como resultado da odisseia de duas mulheres que meteram-se escola adentro, na 3 de Fevereiro, e de lá saíram impávidas e serenas, durante o intervalo, com duas irmãs gémeas de 7 anos as crianças da cidade de Maputo voltam a estar aterrorizadas com o renascido espectro do rapto de crianças e exploracao de crianças. A grande questão é como ocorreu isso no momento do intervalo?


Conheço o funcionamento da escola alvo deste acto hediondo, por inerência do meu papel de mãe e encarregada de educação. No início do ano, o controle é mais cerrado: os portões são fechados pouco depois do toque ficando apenas a portão principal aberto e que dá acesso à secretaria. Entretanto, do outro lado do muro, estão os vendedores ambulantes com chips, rebuçados, sumos, gelinhos e toda a ninharia comestível, verdadeiras tentações para os nossos filhos que tanto apreciam.


A escola funciona com 4 turnos: 6h30 - 10h30, 10h45 - 14h, 14h15 – 17h30, 17h45 – quase 22h e dispõe de duas entradas que na hora de entrada/saída estão escancaradas! Nos três primeiros turnos, as aulas são para grupos de crianças e adolescentes e o período nocturno é para jovens e adultos. Em todos os períodos há movimento de adultos (pais, encarregados de educação, irmãos, empregados, chapeiros, etc.) que levam e trazem crianças. Logo, não há nenhum controle ou este é realmente difícil de executar por dois guardas num universo de mais de 1000 crianças por turno.


Se a criança não grita ou esperneia para chamar atenção, ou se um coleguinha não comenta com o seu próprio encarregado de educação ou professor (e este toma nota) sobre a presença de um estranho, a criança-vitima passa pela porta acompanhada por um adulto sem nenhum problema, mesmo sendo este um desconhecido. Entende-se portanto que a supervisão de saída e/ou entrada de crianças não é deficitária e como todas apresentam-se fardadas, mais difícil fica saber quem está a entrar ou a sair.


Sabendo-se o quão vulneráveis são as crianças à guloseimas e promessas de brincadeira e/ou passeios, não é muito difícil aliciá-las e de lá sair impune. Urge portanto criar mecanismos de controlo de crianças. O jogo psicológico em casa é que deve reinar para evitar esse tipo de tragédia. Consoante a idade e nível de compreensão, o segredo é falar sempre com as crianças, assustá-las até se necessário for.


Em cada ano lectivo, pelo menos nos dois últimos, pais e encarregados de educação são cobrados, desde o primeiro dia de aulas até ao último dia do mês de Março, senão mesmo no acto de matrícula, o valor de 100,00Mt. O valor cobrado serve para pagar aos guardas que velam pela escola e supostamente pela segurança dos nossos filhos/educandos.


Essa "cobrança", sempre é questionada e há muitos pais que não a pagam cientes de que essa é função do Ministério das Finanças posto que estes trabalham para uma escola logo no Ministério de Educação e Cultura/Estado. (In) felizmente estes pais acabam vergando a vontade da direcção da escola sobretudo quando as crianças vêem o seu nome na lista dos não pagadores lida na sala e pressionam em casa.


Entretanto, nesta bagunça, os professores têm grande fatia de responsabilidade. Infelizmente estes são os primeiros a abandonar os miúdos ao Deus dará saindo antes do toque final da sala de aula com a pressa típica de quem, à guisa de bombeiro, vai apagar algum "incêndio em alguma casa particular" (explicação). No meu tempo, o professor só se ia embora depois da última criança ser levada para casa e, se não aparecesse ninguém, era levado para casa do professor. Belos tempos aqueles, mas hoje em dia com a pedofilia...


Se os professores fossem o que eram antigamente, a tarefa de velar pela integridade física das crianças estaria salvaguardada. Usava-se o cartão escolar como forma de autentificar a presença da pessoa que leva a criança da escola para casa, aliás este é o método que se usa em muitas creches e tem sido um sucesso: não tem cartão? A criança não sai!

8 comentários:

OFICINA PONTO E VIRGULA disse...

Belos tempos...estao a escassear dizia meu professor.
Dizia ele que prefere viver nos mosteiros, no campo e e mais, sitios de refugios onde nao ha pedofilia, raptos de menores e maiores (sequestros) corrupcvao viciada e viciosa.

Eu nao posso seguir este pensamento. Fico aqui na cidade a desafiar os sequestros e a espera de ser sequestrado, mas vao se arrepender porque nao tenho e minha familia nao tem nada para os dar de volta a minha pessoa.

saudacoes Ximb.

Jonathan McCharty disse...

Este assunto esta' a virar um problema bicudo. Esperar algo da Policia, seria procurar agulha em palheiro!! A unica alternativa resta aos pais e encarregados de educacao, coordenarem com as escolas as questoes de seguranca e, em casa, educarem os seus menores como procederem perante estranhos!
Por acaso estava a ver ha' o filme de Denzel Washington "Man on Fire" que aborda esta tematica, na America Latina, onde o rapto de individuos e' uma constante!
O cartao do aluno, para permitir a entrada no recinto escolar e confirmacao a saida, e' fundamental para precaver este tipo de situacoes.

Bom weekend e cuide bem dos seus pequenos!!

ximbitane disse...

Pois é, Ponto e Virgula, fugir não é a solução. Temos éque encontrar formas de evitar esta nova moda. Não tarda muito e mudam os métodos já que em banditismo esta-se sempre a evoluir.

ximbitane disse...

Jonathan, esperar pela policia? Que ideia! Essa é para esquecer!

Eu sou verdadeiramente a favor do cartão de controle. Na creche do meu filho é assim, só e somente pai e mãe levam sem o cartão e para isso é necessario ser-se bem conhecido.

Empregados e demais pessoas, só e somente com cartao. Se se esqueceu e vive na Matola, manda-se voltar ou entao liga-se para o progenitor.

Reflectindo disse...

No meu país tudo está numa boa, não há crise. Se fosse noutro lado onde nem me valeu pena ver como governantes e políticos se preocupam pelos cidadãos, pelo indivíduo, com certeza Maputo devia ter movimentado muito depois deste sequestro. Assim devia ter havido discussões em busca de seguranca das criancas.

Mas infelizmente Mocambique é o meu país e parece que a única alternativa é essa sugerida pelo Jonathan: que os pais e encarregados de educacão encontrem a solucão porque essa criancas não são, do Estado, do governo ou de algum político. Aliás, os pais nem fizeram contrato com eles fazerem os filhos.

Mas a questão é como os pais, independemente das suas condicões económicas e da necessidade de eles mesmos terem que ir produzir nas fábricas e servicos, resolveriam o problema.

ximbitane disse...

Por acaso Maputo movimentou-se e muito, Reflectindo. Mas consta que foi para acusar ou deter inocentes, conforme os ultimos depoimentos. O mais importante é que as crianças já regressaram ao convivio familiar.

Mas uma coisa asseguro-lhe, quando não posso ir buscar pessoalmente a minha filha, no intervalo entre as 17h30 (hora de saida) e 18h (hora prevista de chegada a casa) fico muito angustiada.

Jonathan McCharty disse...

Boa noticia é mesmo o facto das crianças ja estarem com os pais. Mas a policia deve tomar medidas para desencorajar essa pratica, antes que o "pepino se torça"!!

ximbitane disse...

Medidas, Jonathan? Deviam sim, mas sera que vao? Pelo menos uma vez deviam estar a frente dos bandidos! Sera que é desta?