segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Estórias de Maputo (3)

De há uns tempos a esta parte, a cidade de Maputo tem sofrido alterações grandiosas. Algumas alterações são positivas, quanto a isso não restam dúvidas, e outras nem por isso e têm consequências profundas que, consoante a sua gravidade, se manifestarão a curto, médio e longo prazo.

Uma forma de observar o quão transformada ou em transformação está "a capital" é pelo preço de material de construção que subiu a olhos vistos, havendo até momentos em que escassea. Aliás, em termos de construção, torna-se cada vez mais dificil distinguir a zona de elite da do Zé Povão pois os primeiros tendem a florescer na periferia adentrando-se aos poucos para engolir os Zezinhos!

No centro da cidade, já é normal olhar-se para o céu e ver-se gruas ameaçadoras, maquinetas barulhentas e homens a trabalhar a todo o vapor. Espaços abandonados, já não existem e se existem têm dono. Que se tire a prova dos 9 colocando um bloco: em algum canto desse espaço está sinalizado, com tabuletas, ser propriedade de alguém e mesmo inexistente, o espaço tem dono.

Até em espaços que antes se acreditava, ou assim se propalava, não serem indicados para construção, hoje estão transformados em mansões dignas de cenas hollywodianas ou em blocos de escritórios que crescem, crescem e não param de crescer tal arranha-céus.

Nessa febre de construção citadina, muitas vezes com o intuito de pôr a render cada metro quadrado desse imóvel/edificio, não se olham a alguns pressupostos como a preservação dos espaços verdes. Por exemplo, o descampado lamancento defronte do campo do Maxaquene deu lugar a uma via pavimentada.

O Centro de Manutenção Repinga, aos poucos vai perdendo, não só as pistas e as estações de exercicio fisíco como também reduz, a velocidade alucinante, o emaranhado de eucaliptos e outro tipo de vegetação, que faziam deste um local aprazível de estar e exercitar. Em nome do modernismo, uma artéria do pulmão do centro da cidade esvai-se. Quo vadis, Maputo?

4 comentários:

SHIRANGANO disse...

Por um lado, a construção ou a reabilitação de edifícios reflecte, e grande parte, o desenvolvimento de um pais, e é de louvar quando assistimos ao nascimento de mansões e arranha-céus mas, por outro, isso não se traduz numa redução substancial da famigerada pobreza absoluta com particular destaque a habitação condigna para o Zé-povinho. O pior é ver os espaços verdes a serem ferozmente engolidos para dar lugar a uma sumptuosa obra. Diga-se que é uma realidade verdadeiramente clamorosa. Aliás, assiste-se ao crescimento do parque habitacional e a qualidade da construção, mas não está ao alcance dos zezinhos, que na maioria dos casos são atirados para locais mais precários.

Matsinhe disse...

Vejamos as obras em curso numa perspectiva positiva.

1. São milhares de compatriotas nossos empregados;

2. Os espaços outrora usados para acoitar bandidos e/ou gente de conduta duvidosa começam a sumir;

3. As empresas de construção civil operam, empregam gente que paga impostos e elas próprias pagam (é o ideal) para bem das finanças públicas;

4. A cidade fica mais bela;

5. A oferta de escritórios aumenta o que vai, provavelmente, levar a baixa dos valores astronómicos pagos no arrendamento de escritórios pelas empresas que já o fazem quando eram as únicas a fazê-lo.

6. O mesmo acontece ou pode acontecer com os apartamentos;

7. Maior oferta em termos de serviços hoteleiros em época de mundial e não só, principalmente quando também sabemos que em época de conferências a cidade fica sem camas.

8. Etc

Há espaços verdes a desaparecerem é verdade e, me parece, não estão a ser compensados.

A actividade comercial privada em qualquer área, incluindo a imobiliária, visa essencialmente o lucro. Neste momento, os que projectam os edifícios em construção na cidade, acham que apartamentos, escritórios e hoteis dão mais lucro e... zás, lá estão. Ninguém os deve condenar por isso.

Pensar em potenciar a construção de habitação para o Zé povinho, com habitação de qualidade mas de baixo custo é tarefa de outros. Se um conjunto de factores se conjugarem (banca, governo/impostos, municípios etc) pode ser que algum empresário se interesse em construir habitações condignas a que aqueles que recebem pelo menos US$ 1000 sonhem em adquirir. Enquanto isso, vamos sonhando sem lançar farpas para quem empreende.

X!mb!t@nE disse...

Hummm... Lamentavelmente verdade, Shir!

X!mb!t@nE disse...

Pois, Matsinhe, não ha bela sem senão, não é? Tudo o que enumeras são factos verdadeiros e longe de mim lançar farpas aos que empreendem, mas... verdade seja dita, não ha bela sem senão!!!