segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Bordéis, um mal necessário?

Recentemente, numa cruzada nocturna pela cidade, após um copioso jantar com amigos, em locais estratégicos e de conhecimento de muitos, como a Julius Nyerere, Mao Tsé Tung, 24 de Julho, etc., várias mulheres expõe-se à moscas como alface, couve e magumbas num dumba-nengue. Como solucionar esta questão?

Diz um ditado, “há males que vem por bem”! Sou das poucas pessoas que concorda com algumas práticas como o aborto indiscriminado e a prostituição: Comigo ou parte ou racha, mas há momentos em que se deve pôr os pés na terra pois também “para grande males, há grandes remédios”.

A prostituição constitui um ambiente em que as mulheres têm pouco poder de auto-protecção contra o HIV e a violência fisica, até da própria Policia (damas de sexo). As raparigas forçadas ou vendidas ao trabalho de sexo, mesmo antes da puberdade, geralmente não têm consciência dos riscos relativos ao SIDA e são incapazes de fugir ou encetar acções de protecção.

Mas nem toda a prostituição é forçada! Enquanto que para algumas mulheres é escolha, muitas entram para o trabalho de sexo ocasional ou permanente como alternativa à grande pobreza, trocando o sexo por bens de primeira necessidade para si e para os seus filhos. Outras há que vão por essa via para alimentarem o seu ego materialista.

Nas ruas, onde estas mulheres “se vendem”, por serem “obrigadas”, pelo ramo profissional que seguem, a exporem-se em trajes que ultrajam “a moral e os bons costumes” sofrem o desprezo da sociedade que não as vê com bons olhos e são enxovalhadas e alvo de chacota de algumas pessoas, dentre elas clientes disfarçados.

Por outro lado, muitos perigos estão a espreita: agressões físicas e orgias não consentidas, por parte de clientes sádicos ou que não pretendem pagar a conta, perda de receitas por exigirem o uso do preservativo ou mesmo para escaparem das rusgas policias, que muitas vezes resultam também em abusos sexuais.

Em 2008, as prostitutas nacionais chamaram a sociedade civil para denunciar abusos e para exigir protecção de todos os seus clientes. Um dos pedidos era de que se abrissem bordéis em que o Governo deveria instituir uma regra, a de “só com preservativo”.

Se já existem casas que oferecem quartos para o cidadão que é adepto do amantismo, porque não se pode fazer o mesmo com as mulheres que fazem do uso do sexo uma fonte de rendimentos e nos poupamos da pouca vergonha?

9 comentários:

Julio Mutisse disse...

No defunto "MOZMUNDO" discutimos há anos esta questão de as pessoas serem "forçadas" a prostituirem-se seja lá pelo que for.

Nessa época tive uma opinião que se mantém até hoje, há opções mais seguras de ganhar a vida decentemente e sem riscos de HIV, de porrada da bófia ou de participar em orgias não planificadas.

A pobreza a pouca escolarização, a escassez de recursos e/ou a questão do acesso ao emprego não são, de per si, justificações válidas para o ingresso a prostituição. Esses problemas afectam muitas moçambicanas que fazem outro tipo de opções distintas da exposição na Julius Nyerere, Mao Tsé Tung, 24 de Julho, etc.

Lucro fácil parece explicar melhor.

Mas se os bordéis podem, aparentemente solucionar certos problemas podem criar outros. Que capacidade existe para controlar o que existe? Haverá para os bordéis? Quem controlará que, dentro do quarto, o preservativo será usado?

X!mb!t@nE disse...

Pois, nao ha bela sem senao, nao é, Mutisse? Mas entre um e outro item de beleza...

SHIRANGANO disse...

stanlSerá lucro fácil!!? Não concordo na plenitude...na minha opinião é falta de alternativa ate mesmo de oportunidade num mundo, numa sociedade em que a minoria-privilegiada amplia os seus privilégios para além do intolerável, enquanto há quem passe fome e morra de fome.

As causas concretas e, de certa maneira, cientificas que levam muitos, muitas compatriotas a essa vida, é a pobreza. Faltam acções e medidas eficazes e concretas, ao invés de se ficar no uso da palavra, para erradicar a pobreza.

É um facto que muitos dos nossos compatriotas passam por necessidades e não optam pela venda sexo porque conseguem uma vez a outra almoçar ou jantar, mas também existem tantos outros que não tem sequer uma refeição por dia, e nem onde buscar uma mandioca para ferver e comer.

Infelizmente, o governo não tem tido coragem, lucidez ou audácia suficiente de avançar com uma lei que legalize a prostituição, tudo por causa de um moralismo barato que o Vaticano e as suas sucursais espalhadas pelo mundo, e não só, proliferam.

Por essa razão, olhamos para esses sujeitos como um mero objecto. Enquanto não forem as próprias trabalhadoras de sexo a encabeçar esse combate, continuaram a correr todo tipo de riscos.
Abraço!

X!mb!t@nE disse...

Shir, o fundo da questao nao é ser ou nao pelo lucro facil pois ha quem chame de profissao mais antiga do mundo. A questao é: continua a vista de todos ou se envereda pela via de um espaço para o exercicio dessa actividade com os beneficios citados!

PS: e felizes de nos que nao tendo a visao de um prato para o jantar batemo-nos, como podemos, para tentar garantir a miragem desse mesmo jantar. Infelizmente cada um luta com as armas que tem e pode carregar.

Julio Mutisse disse...

Eliminar é impossível, controlar é necessário não hajam dúvidas mas, nesse exercício nessa forma de pensar não podemos descurar da necessidade de moralizarmos a sociedade.

A justificação de que se envereda pela prostituição por causa da pobreza é simplista demais. Porque não vão dumba-nengue vender amendoim como fazem milhares de mulheres em Moçambique? Porque não tentam trabalho como domésticas? Porque não tentam emprego nas farmas como fazem outras? Porque não vendem pão e badjias na junta como outras?

O argumento é mais simplista quando pensamos que a prostituição é feita por "meninas pobres" sem escolarização... quantos relatos de estarem envolvidas estudantes universitárias não nos chegaram aos ouvidos ou à vista? Fiquei abismado quando em passagem por Nampula visitei um bar que tem o nome da capital de um país que é a dor de cabeça dos EUA (estão a descalçar a bota) e soube de um colega que a maioria das meninas que se insinuavam a nós naquele espaço SÃO estudantes universitárias das diversas escolas que funcionam naquele ponto do país. Ao voltar a Maputo relatei isto a um amigo que residiu numa das Residenciais da UEM e me contou que a paisagem da Keneth Kaunda e J. Nyerere era também ornamentada por meninas universitárias saídas daqueles centros... será mesmo pobreza?

Nelson disse...

A prostituição existe mesmo em sociedades sem alguns dos problemas que a Ximbitane aponta como causas da prostituição na nossa sociedade.
A nossa moralidade nos “manda” olhar para essas “coitadas”(maior parte delas) como umas depravadas que mesmo tendo algo melhor de fazer na vida optam por lucro fácil(não sei quem nos disse que é fácil).
Eu penso que não está em questão oque leva essas mulheres à prostituição mas encontrar-se formas de minimizar o mal.

AGRY disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AGRY disse...

Aqui está uma questão polémica, que é transversal a todos os continentes e, por isso, mantém toda a actualidade!
Quer-me parecer que a problemática desta postagem poderia (e deveria ) ser analisada em duas postagens, de forma independente
1)A primeira poderia debruçar-se sobre as causas e perspectivas da prostituição
2)A segunda postagem teria em linha de conta a sua legalização.

“A prostituição vem sendo praticada desde a mais remota antiguidade; na idade média, ela foi oficializada como profissão pelas autoridades, constituindo, assim, uma fonte de rendimento para o Estado. Durante a Revolução Industrial, a prostituição aumentou em toda a Europa devido ao êxodo rural, às condições de pobreza e à promiscuidade das aglomerações urbanas” (Confª Nacional dos Bispos do Brasil)
A prostituição não se reduz a um acto individual de uma pessoa que aluga o seu sexo por dinheiro. É uma organização comercial com dimensões locais, nacionais, internacionais e transnacionais nas quais estão presentes três parceiros: pessoas prostituídas, proxenetas e clientes.
A prostituição e o tráfico humano a ela associado, movimentam verbas superiores ao orçamento da maioria dos Estados desenvolvidos. As organizações criminosas multinacionais envolvidas neste “ negócio” são verdadeiros exércitos e estados dentro de estados.
As violações, o abandono e/ou expulsão familiar, os aliciamentos, a chantagem, o tráfico humano, as ameaças, a impreparação académica e profissional, os conflitos armados (quem ignora as violações?) alcoolismo, intolerância e arbitrariedade de familiares, a droga, constituem uma listagem, não exaustiva, que nos ajuda a compreender as causas da prostituição.
Ante este quadro sinistro, ainda haverá ousadia para fait-divers e afirmar-se que a prostituição é (ou era) perfeitamente evitável? Isto faz-me lembrar a afirmação cínica de alguns: “há desemprego porque as pessoas não querem trabalhar pois só não trabalha quem não quer”

Sobre a segunda questão, transcrevo duas opiniões de sinal contrário:
O advogado José António Pereira da Silva, defende a salvaguarda da saúde pública, “porque hoje permite--se a prostituição de rua sem o mínimo controlo sanitário. É um perigo porque pode ser um foco infeccioso. Essas pessoas têm de ser rastreadas." Mas o "decoro" será também uma razão: "Porque é que é pior na rua que em casa? Na rua elas estão menos protegidas. E é também uma questão de decoro, não tenho problema em usar a expressão decoro."

A socióloga Inês Fontinha tem opinião bem diferente:
A prostituição é um atentado aos direitos humanos e os atentados aos direitos humanos não devem ser legalizados". Apostada em "combater as causas", Fontinha vê o rastreio obrigatório como uma discriminação: "a prostituta é examinada e o cliente não?". Quanto às "casas de passe", classifica-as de "violência extrema, porque tudo se passa entre quatro paredes". Nesta visão da prostituição no feminino, como vitimização e "subalternização das mulheres" não cabe quem (mulher ou homem) escolha prostituir-se. "Se existirem pessoas que querem vender sexo, isso faz parte da vida privada. Por que há-de o estado legislar sobre a vida privada?"

Chacate Joaquim disse...

Para bens Ximbi! AGRY, de facto há muita tinta em redor deste quase um valor, uma cultura etc.

A questão da legalização não é vista só do lado da carta universal dos direitos humanos mas também de valores.

parece que os povos aqui preferem deixar andar... hehehe