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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estórias em Maputo (40)

Que não reste mais nenhum espaço para dúvida : o transporte na Grande Town é um dos casos mais bicudos de que se tem memória ! Já não se distingue hora de ponta de hora morta ! Em muitas paragens e a todo o momento, meter o pé num meio de transporte, público ou privado, é um episódio para uma longa metragem cujos capítulos finais ainda não figuram no roteiro de quem de direito !



Como se não bastasse, é absurdamente notório o grau de degradação das viaturas que transportam a grande maioria de cidadãos de suas casas para os postos de trabalho e vice-versa. Ninguém se importa ou manifesta qualquer interesse até que a tragédia, que sempre anda a espreita, ocorra. Aquele ditado que diz "prevenir é remediar" foi substituído por "deixa andar" e a fila assim anda.



Ainda por cima, numa tentativa desesperada de agarrar a primeira tábua que passa(va), optou-se por admitir que os que não têm licença para transporte de passageiros passassem a fazê-lo em períodos pré-determinados. Penso rápido na ferida, se se levar em conta que alguns dos piratas já circulavam na praça, contudo, neste caso também não foram acautelados os critérios de segurança.



Verdade é que alguns desses "piratas" dispõe de viaturas em muito bom estado, tão bom, que até mete dó vê-las a circular só "em certas horas". Mas, por outro lado, há viaturas também em bom estado criadas para o transporte de carga e que hoje transportam pessoas lembrando tempos já idos. Porém, ao contrário de suas ancestrais, as carrinhas de hoje não dispõe de lona nem de ferragem alguma que permita que os transportados se segurem a algo na viatura que não os demais passageiros, companheiros de viagem.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Estórias em Maputo (38)

O pequeno-almoço é uma refeição que contribui grandemente na definição do que vai ser o dia de quem o toma ou não. Matabicho, como é por cá chamado, é o momento de matar o afaimado bicho que faz roncar estômagos vazios por via do chá com pão, mandioca, batata-doce ou xiquento (sobras do jantar).

Contudo, com o agudizar da crise esta refeição parece estar a perder o seu estatuto ou tradição. De refeição primeira, cada vez mais tarda em chegar à mesa do citadino. Em muitas casas, é sinónimo de almoço. Para outros tantos, que a essa hora encontram-se longe de casa mata-se o bicho com um pratão de sopa e metade de um pão, de preferência, subvencionado.

Assim, exércitos de citadinos de vários extractos sociais, chapeiros e cobradores, funcionários vários, estudantes e professores, babalazados e outros, desde as primeiras horas da manhã fazem-se as barracas para ao preço dentre 20 à 35 meticais consumirem uma sopa que se torna a cada dia que passa não o alimento da preferência matinal do Zé Povinho mas o que é possível consumir.

Inicialmente adoptada como a fórmula para "a ressureição dos mortos", entenda-se ressacados, hoje a sopa da rua tem outra dimensão : é o que, a preço baixo, melhor engana o estômago. Como o universo de consumidores de sopa aumenta substancialmente, as "sopeiras", de olho no lucro, quão ladrão que vê oportunidade criada, no lugar da batata usam farinha de milho, maputizando o prato.

Também, como a clientela é tendencialmente carnívora, as sopas são intencionalmente enriquecidas com todo tipo de desperdicio animal e ainda, num perpétuo continuum, as sopas do dia anterior enriquecem novas sopas. Isto tudo, pondo de lado a questão da higiene. De toda forma e pelo número crescente de consumidores, a sopa é uma coisa boa!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Dito pelo não dito

“Tenho 28 anos, casado mas carente, 2° ano do ensino superior, procuro miúdas nas mesmas condições, sem compromisso. Interessada escreva kero e deixe seu número de telefone.”


"Ola sou a Deyse. Mulheres que procuram criar novas experiências... Contacto 82... "


Para bom entendedor, meia palavra basta!


In rodapé do programa de entretenimento Music Box

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Estórias em Maputo (37)

A chuva que tem caído miudinha ou estrondosamente em Maputo revela as inúmeras fragilidades dos sistemas de drenagem de águas pluviais e não só. Dentro da town, o seu centro, a Baixa, do nada transforma-se num rio com ondas vinteecincosetembral. A fonte desse rio, segundo quem de direito, que muito recentemente investiram em drenos, é de que os plásticos do comércio informal entopem-nos !

Mais para cima, a meio da cidade, a água escorre solta, arrastando detritos vários no seu percurso em direcção às zonas mais baixas. Visto que, grande parte dos esgotos estão obsoletos, e na hora do dilúvio as coisas agravam-se, as suas águas negras misturam-se com as cristalinas encobrindo os habituais buracos, na via e no pavimento, que se alargam e os novos, que surgem sem nenhuma surpresa para os citadinos.

Nessa corrida desenfreada, para lado nenhum, as águas da chuva não encontram espaço no verde e denso matagal em que se transformaram as valas de drenagem. Se os cabritos aí fossem amarrados… !!! O dilúvio em Maputo não poupa mesmo nada: nem mesmo o récem inaugurado modern aeroporto internacional de Mavalane escapou a uma inundação! Talvez não palharam convenientemente e à moda chinesa…

Na periferia, a porca já nem tem rabo! É um "salve-se quem puder" pois lugares há em que o dilúvio aí desemboca e se instala : dentro ou fora das residências. Diante de nenhuma atitude máscula, de quem de direito, novas crateras tipo Julius Nyerere engalanam a nova face da Grande Town, com todos os riscos que isso acarreta. Bom, Maputo quando chuva ?!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Estórias em Maputo (36)

Há coisas para as quais o comum e pacato maputense não pode fugir no seu dia-a-dia. Dentre esses aspectos, está o uso, sobretudo nas manhãs e ao fim do dia, do transporte semi-colectivo de passageiros, vulgo chapa. Chapa 100, um antigo referente do valor a pagar pela viagem, de cuja simbologia ficaram apenas as expostas e cortantes chapas da carroçaria e o seu desventrado e perfurante interior.


Num chapa, para além do habitual encurtamento de rotas, que todos usuários vivem no bolso e na pele, ocorrem outros fenómenos stressantes : pugilato para aceder ao mesmo, velocidade vertiginosa, malabarismo na via, som com décibeis dignos de fazer inveja a muita discoteca, cobradores mal encarados, indisciplinados e arrogantes e, claro, a presença constante de guindzas que sorrateiros espreitam toda e qualquer oportunidade.


Oportunidade essa que se oferece quando o cobrador, sem modos absolutamente nenhuns, em alto e bom som, ordena e impele rudemente os passageiros a ocuparem todos os espaços, em completo desrespeito a postura do esqueleto humano. Claro, o passageiro safado aproveita-se desse arranca-acelera-vira-revira-trava para roçar e apalpar a curvatura feminina indo ao extremo, com visível prazer, de encoxar e assim realizar os seus mais profanos devaneios.


Ainda nessa vertiginosa viagem, com destino previamente traçado, mas que pode ser subitamente alterado, por um tipoliça esfomeado, por uma paragem em sentido contrário repleta de potenciais clientes, por uma avaria ou pela incerteza que é a vida, um misto de adrenalina e medo transparece no semblante dos viajantes que, ao contrário da team que só pensa em chegar em primeiro ainda acreditam que « encher não é acomodar » e « correr não é chegar ». Chapa ntsém!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Em nome da b'leza

A vaidade feminina já não mais tem limites! Vale tudo e mais alguma coisa. O mais importante é estar-se e sentir-se: mais linda, mais sexy, mais gostosa, mais ... A lista não acaba e cada mulher com a sua merecida razão! Os atributos, bonificados pela natureza e que sempre nos caracterizaram, não mais se apresentam como realmente são tanto na cidade como nos seus arredores pois o padrão de beleza transfigurou-se.

Já não se é nem se está 100% natural! Está-se é a caminho dos 100% artificial! Tudo, em nome da beleza. Essa que nos é mostrada pelas musas de inspiração, artistas e figurantes desnundas em video clips, trazida pelas manas da South, do Brasil, da China ou da India ou ainda vendida pelos estrangeiros com raízes firmadas cá na terra e que ditam a moda das damas.

Não mais nos apresentamos com tranças “tipo” xikwenheta ou s’três. O cabelo deve estar frisado ou com apliques de mexas, tissagens e extensões. As unhas, segundo dita a regra do momento, devem ser acrilicas ou de gel e sempre com a manicure em dia. Afinal, nail art é o que está a dar, vender e a lucrar... Parece que basta? Entra no pacote roupa e acessório que devem combinar na cor, formato e material.

E, não é tudo! Enquanto que umas tentam a todo o custo diminuir o peso, com chás adelgaçantes e dietas milagrosas, as curvas femininas de mulheres com posses são turbinadas com silicone e bisturi, no estrangeiro. Outras tantas mulheres preenchem suas “insuficiências” com soutiens almofadados e com a récem saída da fábrica calcinha-bumbum! Pois é, beleza é sacrificio no bolso, na mente e no corpo!

domingo, 17 de outubro de 2010

Saldo zero !

O sistema nacional de saúde, melhorou muito, isso não se pode negar. A falta de alguns medicamentos, nas farmácias públicas é uma unha encravada e não é menos verdade que, muitas vezes, os recursos humanos falham ou demonstram uma incompreensível insensibilidade. Mas, errar é humano, não é ?

Ora, a (in)sensibilidade humana, nos nossos hospitais, é o único pão nacional ao qual não se lhe diminuem gramas, nem com intenso calor que é característico destas paragens. As unidades privadas têm também o seu pedaço de (in)sensibilidade que é servido em momentos em que a vida está literalmente por um fio.

Já nem sequer bastam as garantias de empresas de índole reputada ! Pouco importa se a pessoa está à porta da sala de operações ou se está na metade de uma medicação… Pouco importa se faltam uns míseros trocados, tão insignificantes para tamanha chantagem emocional: é saldo zero ou… !

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Estórias em Maputo (28)

Hoje, para a alegria de muitos, os locais que oferecem refeições, sobretudo a hora do almoço, período em que grande parte das pessoas se encontra distante de suas residências, já não se limitam apenas aos restaurantes que, muitas vezes, cobram valores que correspondem ao rancho de muitos moçambicanos.

Assim, em roulottes, barracas de mercados formais e informais, casas de particulares, bares de classe média e em passeios da Grande Town, para além dos serviços à domicilio, é possível encontrar uma refeição quente, morna ou fria com preço à medida das possibilidades dos diferentes bolsos.

Contudo, muitos aproveitam-se dos inúmeros eventos organizados por entidades várias como seminários, workshops, reuniões ou conselhos coordenadores para garantirem o matabicho, almoço e lanche e se "bobear" organizar uma marmita para a familia "lá em casa".

Tal facto é notório pois, nas plenárias, nos debate e nos trabalhos em grupo, grande parte dos participantes se encontra ausente. Mas, tendo estes conhecimento prévio do programa de actividades e, consequentemente, dos períodos das refeições ninguém se atrasa na hora do "tacho".

Se por um lado estão os convidados ao evento, que se ausentam da plenária e se fazem presentes a "hora do rango", a sala de refeições apresenta-se um outro grupo : o dos não-convidados que, para variar, é o primeiro a servir-se, o que obviamente deixa em prejuízo aqueles que efectivamente participam nos eventos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Estórias em Maputo (27)

Na cidade das acácias rubras, em irreversível decadência, o adágio quem não deve não teme parece ter evoluído para outro significado pois ocorre um fenómeno curioso: os cidadãos pacatos por não terem meios para "se desculpar", entenda-se de subornar, receam a polícia, seja ela de protecção ou de trânsito, mesmo estando em situação regular.

Suspeitos, geralmente pelo aspecto que apresentam e pelo que consigo trazem (sacolas, caixas, etc.), muitos maputenses e, eventualmente muitos outros moçambicanos e estrangeiros, em outras paragens, são preferencais alvos à abater. Com ou sem a mão na massa, rarissímas vezes os suspeitos são encaminhados à esquadra. O assunto é "julgado" nesse mesmo local ou a poucos metros do mesmo se houver curiosos mirones.

O mais evidente é o beat entre chapeiros e policia municipal que só não é desmantelado por má vontade do tal de "quem de direito"! Os municipalitos, que usa a mesma técnica que os policias de trânsito, mandam os chapeiros pararem e solicitam a apresentação da documentação. Como sistematicamente os chapeiros estão em falta, zás, logo logo "prendem os documentos".

Como os chapeiros há muito alimentam esse círculo, quando indicados a parar, num road block, estacionam a alguns metros dos policias e a eles dirigem-se com os documentos, no meio dos quais há sempre um cash. Caso contrário, deixam os documentos e, na viagem de volta, "mimam" o policia que fecha os olhos a um número assustador de irregularidades.

O que mais enerva é assistir a esse espectáculo gratuito, de categoria inqualificável, no qual os tipoliça, achando-se as últimas bolachas do pacote, sujeitam-se a uns míseros 50 paus "porque só entramos agora na praça, chefe" e são alvo de chacota geral dos passageiros e da team do chapa que se vangloria de ter pago umas quinhentas. Epa, policias pah !

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Estórias em Maputo (26)

Um dos adágios populares, que melhor caracteriza um número considerável de maputenses, é “cabrito come onde está amarrado”. Não se engane pensando que o adágio é somente estampa dos corruptos ! Não corruptos, que se servem da máxima ao pé da letra, também ganham dividendos com a apropriação desse dito popular.

Aliado a isso, o impacto do slogan que mostra e demonstra que, para se sair da pobreza, que graça muitos compatriotas, o empreendedorismo "é a ferramenta", o enlance com o ditado cabrital é quase perfeito. Esse casamento vinga em repartições públicas que acolhem um número significativo de utentes, como centros de saúde e conservatórias de registo diverso.

Nesses e em outros locais de serviço público, funcionários com tarefas específicas, como por exemplo, de secretária ou de limpeza, trazem de suas casas bens de consumo imediato (bolinhos, pão com manteiga, sumos diluídos, água engarrafada, etc.) e, ao invés de executarem as suas tarefas primeiras, dedicam-se, em primeiro plano à venda desses produtos.

Subtilmente, percebe-se que quem não compra não é proporcionalmente atendido, criando assim um círculo vicioso. Como consequência, todo o trabalho atrasa-se e, no que tange particularmente aos sanitários, estes apresentam-se inadequados para o seu uso e o cheiro exalado é deveras incómodo para todos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Estórias em Maputo (25)

Durante muito tempo, os cânticos da igreja foram entoados com o apoio de livros de cântico. Por força da frequência das repetições, muitos desses cânticos foram decorados. Com o passar do tempo, por força do uso, muitos desses livros foram-se desfazendo e, verdade seja dita, alguns roubados.

Com o evoluir da tecnologia, para cada missa, em função do repertório escolhido, faziam-se fotocópias. A estratégia parece não ter funcionado a contento, para muitas igrejas, posto que exigia número elevado de exemplares, logo valores, para o número de cantantes que nos dias de culto em massa se dirige às igrejas.

Na procura de soluções, algumas igrejas preferiram investir forte e feio e preferiram dotar-se de meios tecnológicos para resolver a questão das letras dos cânticos. Ora, apetrechadas com data show, algumas igrejas não só resolveram o primeiro problema como tornaram a missa num show de talentos gospel com a adoptação do karaoke!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Estorias em Maputo (23)

Ah, voltando a estória das empregadas, as senhoras realmente não têm preguiça. Para além de serem bifeiras, das makas dos patrões, são engenhosas. Por exemplo, muitas empregadas têm bata ou outras vestes para usarem na hora do trabalho. Certo ! Pela manhã, quando elas chegam, trazem suas próprias vestes que, em principio, devem vestir na hora de despegar. Certo !

Ora, muitas vezes, as vestes que são trazidas vestidas, na hora de entrada, são injustamente lavadas e engomadas no local do trabalho. Algumas nem sequer se inibem em trazer um fardo de roupa para lavar e engomar as expensas dos patrões, sobretudo se esses, engolidos pela dinâmica da vida, e nem se dão ao luxo de verificar como andam as coisas lá em casa.


Algumas empregadas quando, por exemplo, têm algum evento festivo no fim-de-semana (casamentos, baptismos, lobolos, etc.), não têm as mesmas inquietações que seus patrões quanto as griffes para igual evento. Nem com os acessórios, muito menos com a maquilhagem. Só se preocupam com o penteado, só e mais nada !

Sem stress, e sobretudo se os contornos corporais forem aproximados, entre patrões e empregados, estes não se coibem em seleccionar vestes dos primeiros e fazerem-se a festa, para a admiração dos convidados concientes de suas posses, chiques de doer. Como não lhes dói mesmo nada, ao lote de vestes, incluem-se as clutchs da patroa chata, os sapatos e outros acessórios, escapando apenas a gravata da confi* do patrão!

*confiança, de estimação

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estórias em Maputo (22)

As empregadas domésticas decididamente são um mal que vêm por bem. Com ou sem elas as dores de cabeça são uma constante para os patrões. Quando se revoltam ou se acham exploradas, fazem coisas impressionantes : lavam a casa-banho com escovas de dente em uso, ligam desnecessariamente electrodomésticos ou deixam torneiras abertas só para aumentar os gastos.

Apesar de passarem grande parte das refeições no local de trabalho, as empregadas domésticas não se ralam nem um pouco em fazer o seu próprio rancho no rancho da familia à que servem. Se se trata duma patroa tida como chata, maior azo ganham as empregadas para "so dar mais raiva". Aí, tal como os bandidos, as donas do lar, têm ideias ardilosas para contornarem qualquer "esquema de segurança patronal".

Umas fanam os produtos alimentares ainda não confeccionados, outras confeccionam-nos e levam-nos como take aways para suas próprias. residencias. Os esquemas de retirada desses produtos são tão surpreendentes quanto inimagináveis : batata, tomate, cebola, alho, cenoura e outras hortículas "deitam-se" na lata de lixo. Proibir a retirada dos dejectos na hora de saída pode ser a solução.


Pode sim, mas logo logo outra estratégia será posta em marcha! Pode-se, por exemplo, esconder os produtos em algum canto do prédio ou quintal. Ou ainda entregar a alguma outra empregada que despega mais cedo, ou chamar algum familiar para ir buscá-los e como até os guardas da casa entram no esquema, estes podem guardar os produtos para os entregarem na hora de saida. Vale tudo mesmo!

sábado, 15 de maio de 2010

Novos contextos, outros textos

Durante muito tempo, se bem que se propagava à torto e à direito, o preservativo foi sempre publicitado dando a sensação de ser «algo» : um produto pouco atractivo que se revelou incomodativo, pouco prático, mais ruidoso do que os decibéis permitidos, etc. Nessa altura até surgiu a máxima «banana com casca, não anima» melhor era « nhama com nhama ».

Também, comprar um preservativo, em momentos do passado, foi sinónimo de promiscuidade por parte de quem o adquiria em vários pontos de venda. Era preferível adquiri-los gratuitamente nas toiletes de restaurantes, discotecas, escolas, etc. Derivado disso, as mulheres, para não serem conotadas como profissionais da mais antiga profissão do mundo, pautaram pelo não comprar.

Evidentemente, essa situação criava condições para que, na hora H, as possibilidades de negociação, entre homem e mulher, se tornassem quase nulas para o lado do sexo mais fraco pois cabia ao machão a tarefa de o comprar e, evidentemente, de o usar se a sua vontade assim mandasse.

Felizmente, hoje, talvez por força dos dados estatísticos, que revelam altos indices de contaminação pelo virus do HIV, sobretudo da mulher, os discursos mudaram. Finalmente as mulheres podem comprar preservativos tal como compram sabão pois “toda a gente precisa” e se sentirem seguras porque as suas amigas sabem, que nas nigths, ela está protegida pela companhia do preservativo.

Por seu lado, os homens, casados ou não, em cenários paisagísticos, ideiais para lua-de-mel protegida pelo preservativo, dizem de boca cheia que, apesar de não ter sido prática frequente do passado, devem e vão usá-lo pois está é uma forma de amar à la mozambicaine. Clap, clap, clap… Que dizer ? Ainda bem que os moçambicanos finalmente aprenderam a amar : haja muito amor nesta terra !

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Acendam a luz, por favor!

A fornecedora de luz nacional tem alegado, muitas vezes, que a qualidade de energia (entenda-se fraca/baixa) em certas zonas da town, tem sido condicionada, devido à ligações clandestinas que, evidentemente, têm enchido os bolsos de muitos clientes desonestos e, se bem que nunca tenha sido oficialmente confirmado, de funcionários que se envolvem nessa choruda negociata.

Na Grande Maputo, local onde os níveis de «clandestinidade» devem, em princípio, ser os mais reduzidos possíveis (para justificar o grau de qualidade da energia fornecida), tem-se assistido à um fenómeno que ganha contornos preocupantes desde a altura das festas do fim-de-ano caracterizados por longos períodos de escuridão, como se dos times dos BA’s se tratasse !

Em bairros como Alto-Maé, Malhangalene e Central, só para ilustrar, tem ocorrido esses momentos, em que «se desliga a luz», quase sempre sem nenhum aviso prévio e sem promessa alguma do período de restabelecimento. As consequências disso, certamente todos conhecem e, duma ou doutra forma, já viveram na pele.

O mais estranho e preocupante, dos últimos «desligamentos», é que quando a energia é reposta, para além da habitual fraca ou forte potência, o que se verifica é que em prédios que aparentemente utilizam a mesma linha, um pode ter energia e o outro não e, o mais caricato de tudo é que o mesmo cenário pode ser constatado em dois vizinhos de um mesmo andar.

Ah, de hoje há uns tempos atrás, as facturas de consumo não eram distribuidas aos clientes, afinal era porque se pretendia apresentar um novo modelito… É um bocado pálido, mas estão de parabéns à mesma, afinal «Com energia contruimos futuro»!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O rugir do leão

Nas nossas televisões, há algum tempo, tem corrido uma saga publicitária, ao estilo « bonecos animados », interessante e cómica, marcadamente moçambicana, protagonizada por um grupo de petizes, no qual se destaca o potente e invencível Pepito, que visa, na verdade, promover os feitos de um arroz de produção ( ?) e marca nacional, geralmente acompanhado por um feijão « que só a minha mãe sabe fazer », com poderes comparáveis às performances do rei da selva.

Com episódios, muitas vezes, relacionados com eventos políticos e sociais, como feriados nacionais (dia da celebração da independência, dia da mulher moçambicana, etc.) e datas especiais (jogos olimpicos, celebração do natal, dia dos namorados, por exemplo), a saga do Pepito e de seus companheiros, entre eles o Mandinho, é afincadamente acompanhada pelos demais petizes. É só olhar para as atitudes e formas de expressar dos mesmos !

Ora sabido quais são os « poderes » do rei da selva, no início da saga, a palavra de ordem pressupunha que ao consumir tal arroz ganhava-se força e energia. Com o andar dos tempos, viu-se o Pepito, a princípio um magricela, a ganhar massa corporea e a despender muita energia, como nos episódios em que jogava uma partida de ténis, ganhava corridas (apesar de todos os obstáculos que lhe eram colocados) ou no concerto pelo Natal, que de tão electrizante, ao estilo hard rock, se esparramou no chão.

Com o andar dos tempos, outros slogans foram construídos. O episódio mais recente, com slogan Estamos mais fortes !, mostra o Pepito e seu companheiro de brincadeiras, o Mandinho, contra dois outros rapazes, num jogo, que a princípio parece « cochet/coché ou morto », mas com bolas, de dimensão menor que as do andebol e maiores que as do ténis, que com toda força e energia, as lançam uns contra os outros até, claro, ao derrube dorido da equipe adversária.
Conhecidas que são as manias das crianças, grupo mais atento a esta saga, de tudo imitar, especial atenção deveria dar-se ao tipo de brincadeiras promovidos e a linguagem usada, senão grrrrrrrrrrrrrrr...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Estórias em Maputo (14)

É raro ver-se, em anúncio publicitário, a disponibilização de vagas para empregadas doméstica e é de boca em boca que a informação circula. É natural solicitar-se a uma empregada, jardineiro ou a um guarda, de créditos já firmados, a procura de alguém para o posto de empregada doméstica.

Tal como o é no processo de admissão de uma secretária, gerente ou outro profissional, para os empregados o critério favorecedor é a experiência laboral. Para responder a esse critério, ultimamente solicita-se a apresentação de uma carta de referências ou então se põe imediatamente à prova a candidata (na execução de um prato, na lavagem de uma peça de roupa, no arranjo de uma mesa, etc.) tudo depende da exigência do patrão.

Infelizmente, nem toda gente passa no teste das competências ou dispõe de alguém para passar um certificado de competências. Como que a responder a responder a essa lacuna, agências de formação das fadas-do-lar surgem timidamente no mercado da capital. Nesses locais, formam-se bábás, empregadas domésticas, mainatos, cozinheiros, etc.

Breve, ao preço que habitualmente se solicita em cursos oferecidos, aos chutos e pontapés, por tudo quanto é centro de formação, os candidatos aprendem o que é suposto uma empregada saber fazer no futuro local de emprego. Algumas madames com posses, para melhorarem os serviços domésticos em suas casas, oferecem esses cursos aos seus serviçais. Algumas recuperam o investimento em descontos no salário…

Para o caso dos débutantes, no pacote de formação da agência, figura a possibilidade de se encontrar para este o primeiro emprego. O preço desse emprego, como acontece quando é uma outra empregada a dar a dica de emprego, ao invés de uma percentagem, é a totalidade dos dois primeiros salários em favor da agência ou centro de formação.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Estórias em Maputo (11)

Em Maputo, toda oportunidade dá negócio. Tudo vale para entrar na rota dos negócios, ou não somos empreendedores! O ditado “cabrito come onde está amarrado”, cai que nem uma luva para aqueles que não perdem oportunidades para se dar bem, mesmo que seja ao custo do suor e de lágrimas dos outros, senão mesmo dos impostos que tanto custam pagar.

Maputo é uma cidade em profundas transformações e as “oportunidades” acompanham esse crescendo. Nas obras, não importa a dimensão, se privada ou pública, se de um pacato cidadão ou de um grande empresário, oportunidade é oportunidade, ninguém a perde e, se não existe, criar é uma missão possível, haja oportunidade !

Ora, nas obras de construção, o pessoal « retira » tudo o que é susceptível de criar rendimento. Nessa rota, vale tudo : sacos de cimento, blocos, tubos, ferro, caixilhos, pregos, azuleijos, interruptores, lâmpadas, nada escapa. Por exemplo, diz-se que muito ferro para as obras do estádio serviram de alicerces para construções da zona…

Se se pensa que as « rotas » só ocorrem nas obras de construção, him him, engana-se. Na área dos transportes também há rotas ! Os motoristas dos carros de grande tonelagem, sejam eles de recolha de lixo, de transporte de materiais para obras, de bens de consumo e outros não se fazem rogados : « chupam » o combustível e põem-no na rota.
Adenda:
Um exemplo de como não se perde nenhuma oportunidade, com o decreto que determina que para evitarem o risco de acidente todas as viaturas devem possuir, entre outros, um colete de sinalização, com a aproximação do Dia D, esses coletes que antes custaram 50Mt, variam agora entre 120 e 250Mt, consoante a zona.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estórias em Maputo (9)

Antigamente, as pseudo-bábás vinham lá da terra. Eram jovens vindas de familias humildes, geralmente vizinhas de algum familiar, cheias de respeito e com profunda gratidão pelos patrões por as terem tirado duma casa em que as vezes faltava um pedaço de mandioca para acompanhar o chá sem açucar. No contrato verbal, com os pais dessas moças, ficava sempre patente que as meninas deveriam continuar os estudos já que lá na vila estavam condenadas a um casamento com o pastor de cabritos...

Muitas dessas jovens, chegadas a grande town, emocionadas pelos feitos novelísticos, vistos durante as ausências da patroa, cedo perdiam a humildade e com a ponta dos empinados e virgens seios, partiam para o ataque ao patrão, ao irmão jovem da patroa, ao empregado do vizinho ou ao guarda do prédio. Breve, trazê-las de lá, tornou-se um investimento de risco para o "estatuto de patroa "de muita mulher. Contudo, a necessidade de ter uma bábá nunca deixou de existir, sobretudo com este corre-corre que é a vida na grande town.

Actualmente, as bábás, de lá ou de cá, têm uma vivência dura: trabalham dia e noite, fins de semana, feriados e folgam 48h por mês, distribuidos por dois domingos. Se labutam para uma mamã madame, dessas que não podem perder nenhum evento, nem faltar a um fútil encontro com as amigas, por conta de um puto chorão, das duas uma: ou as bábás ficam em casa com estes, resumindo a preocupação maternal com um "O patrãozinho está a dormir? Já comeu? ", ou são arrastadas ao evento para que toda a familia possa ver como o rebento cresceu.

Nesses eventos, as bábás devem exercer as suas habituais funções que se resumem ao cuidar do menino, folgando no exercício de outras actividades que só desenvolvem quando estão em casa (lavar a roupa, ser moça de recado, etc.). Como é evidente, nesse dia, por ver por perto a mamã madame e o papá todo enfatado e não me sujes, o menino fica muito fiteiro e dá um valente baile a bábá e, para motiva-la ainda mais, ouve um "leva o Junhinho lá para longe!". Salário que é bom? Não pode ser excepção: é aquela base!

Ah, outra coisa! Para não pôr em causa o "estatuto de patroa" as bábás e outras profissionais que labutam no espaço doméstico não podem ser jovens bonitas, elegantes, vaidosas, inteligentes, empreendedoras... sob o risco de nem sequer serem bábás!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Estórias em Maputo (8)

Bancas de mercados formais quase às moscas, mercados informais ocupados por pessoas com ofícios que os obrigam a trabalhar num mesmo local (alfaiates, sapateiros, cabelereiras,...) e taxas municipais altas (?) e que, aparentemente, não beneficiam os seus contribuintes, parecem ser os motivos que levam a que muitos informais saiam dos locais pré-estabelecidos para os passeios das ruas de Maputo. Por esse motivo (?), especialmente na Baixa de Maputo, peões, que não encontram espaço nos passeios e automobilistas, que pretendem estacionar ou transitar, disputam as bermas da estrada.

Nas ruas de Maputo, se vende de tudo um pouco: produtos alimentares (arroz, batata, cebola, tomate, alho, couve, alface, óleo de cozinha às tampinhas, carne, peixe...) ou pronto a comer (badjias, mahanti, pão, sandes, arroz com caril, peixe frito...); pronto a vestir (saias, casacos, vestidos, calças, roupa interior...) e calçado (chinelos, sapatos, sapatilhas, sandálias...); para petiscar (amendoim torrado, ovo cozido, espetadas, água e sal...) e para beber (água, sumos, refrigerantes, cerveja, bebidas espirituosas...); artigos de lar (lençois, loiça, toalhas, bacias, panelas) e automóvel (sprays, tapetes...) e até ... enfim, um leque de bens passíveis, claro, de descontos de 5, 10, 15, 20, 30 ou 50%.

Em algumas zonas da Baixa de Maputo, nas avenidas Guerra Popular, Zedequias Manganhela, Filipe S. Magaia, dignos epicentros desta avalanche de vendedores informais, é mais notório. Por isso, calcorrear o passeio é uma verdadeira odisseia pois deve-se estar atento para não arrastar para o chão peneiras com amendoim ou castanha, panelas, garrafas, cadernos, CD’s, etc., sob risco de ter que os pagar ou então, entre uma esquivadela e outra, ser-se roubado por guindzas que não perdem nenhuma oportunidade de facturar com o alheio.

Na zona da Ronil, do muro do Cemitério (guarda-fatos fashion) à zona da Estátua, os passeios estão transformados em vitrines ambulantes. O pudor há muito que caiu no esgoto tanto mais que, para o desespero púdico de muitas mulheres, jovens rapazes ousam esticar, diante do nariz de senhoras e senhoritas, com muito à vontade, ou então negócios não são negócios, calcinhas e soutiens, novos e usados sem problemas. Alguns vão ao exagero de, ao escolher uma peça intima que acham servir a determinada cliente, sobretudo as mais avantajadas, excedem-se andando atrás dessa cliente sob pretexto de que "te vai servir, mana".

No entanto, porque parece que o espaço nos passeios já não chega para todos, ou porque se cansaram das corridas do tipo caça à mercadoria (!), estranhamente não ao homem, por parte da Polícia Municipal, que até ensaiou incursões com alguns espécimes caninos, ou porque o segredo para o sucesso talvez seja ser ir ao encontro dos clientes ou então porque a disputa de clientes entre os próprios vendedores é tanta que há mais prejuízo do que benefício, alguns vendedores tornaram-se ambulantes no verdadeiro sentido da palavra.

Carregados como jumentos, com mercadoria na mão, em cauxas, em cabides por eles mesmo modificados e criados, em sacolas (sujeitas a constantes questionamentos da policia, santa paciência!), carrinhas de mão ou em txovas, os vendedores deambulam de um lado para o outro da cidade. No segundo anel da cidade (entre a periferia e a zona chique), estes vendedores, aos berros anunciam o produto que têm para venda: "ximateeee, ha ximate haleno!; coco, coocooooooo...; co’ve, co’veeeeeeeeee...".