sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Reflexão sobre a TV e a nossa cultura*

SR. DIRECTOR!

Agradeço antecipadamente em aceitar a publicação desta carta, no espaço do jornal de que V. Excia é digno dirigente, na tentativa de emitir o que penso da nossa sociedade. A TV é um instrumento bastante útil para aprendizagem, mas cabe à própria sociedade saber utilizá-la. A censura depende de nós ou o que a TV produz vai depender de nós mesmos.

Maputo, Sexta-Feira, 14 de Novembro de 2008:: Notícias

Há o ditado que diz “A casa tem o rosto de quem a habita.” Se quiser ver o gosto de qualquer homem – esposo repare na sua esposa, tudo quanto ela for é o que o marido é ou gosta. A maneira de se trajar – vestir, tratar-se, quanto ao cabelo, andar, estrutura do corpo, a cor, etc.. Os ingleses dizem que: “A choice is not a mistake”, isto traduzido quer dizer “A escolha não é uma falha”.

Sempre o homem aprendeu do outro homem. Mas nem tudo quanto um faz automaticamente influencia o outro. Ele tem a capacidade de escolher o que é do seu interesse, adaptando às suas próprias condições. Nem sempre acolheu tudo quanto é-lhe servido.

Na TVM há uma publicidade que passa durante o noticiário na qual aparecem quatro moços com CHIPS - batatas fritas. A seguir somos dados a ver duas moças semi-nuas que as recebem exibindo o seu corpo nu. E os moços riem-se delas, aparentemente felizes! Ora vejamos o seguinte:

Tem-se dito que a mulher é submissa, tudo por culpa do homem, que ela não tem a voz que teria para expor as suas ideias ou se defender assim que achasse necessário. Sempre se disse que a maior parte das mulheres engrossa a faixa social muito baixa no nosso país devido à falta de escolarização, agravada pela forte influência cultural que em certas zonas do território nacional põem-na como mercadoria. Por estas e outras razões, parece racional o incentivo que se faz à rapariga, que vá prioritariamente à escola, o que já é lema do Governo e Estado moçambicanos. Mas antes disso há que reconhecer que a mulher, particularmente em Moçambique, está bem representada em muitos sectores que nem valeria a pena estar aqui a enumerar.

Hoje existem juristas, temo-las na Assembleia da República, temos ministras, directoras provinciais, administradoras, governadoras, gerentes dos bancos, presidentes de associações e em muitos mais cargos. Todavia, mesmo considerando o facto de serem dignas e exemplares para a nossa sociedade, pecam por deixar que a sua luta não se estenda a combater exemplos que as desprestigiam perante a futura geração. Se deixa isto acontecer, então como é que as outras por vir vão aprender ou saber seleccionar o que é de acordo com a nossas cultura?

Estou a tentar dizer que em Moçambique existe uma camada feminina socialmente bem colocada e educada que já poderia ir quebrando esta onda de desprezo à mulher. Moçambique nos últimos tempos tem sido o exemplo brilhante na África Austral em permitir a classe feminina na liderança. Pode-se falar de Maria de Lurdes Mutola como uma alavanca que despertou o mundo e o continente no desporto. Quer dizer que existe uma oportunidade tal que se as mulheres não se defendem como deve ser é por culpa própria, como no caso em que se deixa explorar pelo homem e a sociedade em geral, quando é utilizada como um instrumento de angariação de fundos.

Aquelas moças nuas a receber “chips” estão sendo admitidas na TV, porque uma empresa multinacional financia ou nos paga e devido ao dinheiro deixamos passar. E a camada feminina, com todas as oportunidades e força acima descritas, nem sequer reage! E em nenhuma vez, salvo fraca memória da minha parte, vimos homens nus nas publicidades! As publicidades dão-nos rendimento, sim senhor, mas não é toda a publicidade, incluindo aquela que nos fere demasiado culturalmente.

É verdade que a Coca-Cola é refrescante, mas não deixo de beber MAHEU, bebida doce feita de milho tradicionalmente. A sura das palmeiras é boa bebida, assim como o canhú que caracteriza, em si, as províncias do Sul de Moçambique.

Mas a mulher moçambicana é abusada pelas multinacionais e não reage. Afinal até quando a ser utilizada como meio de angariação de fundos? Não existirá uma camada social feminina em Moçambique que possa reagir face aos abusos dessas empresas, incluindo aquelas que dissemos que nos representam, ou por terem estudado ou por terem ascendido a cargos e posições relevantes e por isso têm a oportunidade de falarem mais alto…

Só para exemplo, na mesma TV, o homem não tira calças, mas sim, a camiseta e atira-se na piscina e faz a publicidade do Sprite. Porquê não tira as calças e salta nu à piscina para fazer a tal figura publicitária.

Os músicos (alguns) aproveitam-se igualmente da mulher como sexo fraco para poder produzir um espectáculo, que convida o público usando a mulher nua. Sempre houve cultura, mas não a ponto de fazer com que a mulher ficasse nua como hoje em dia. Espero que a TV seja o instrumento educativo da sociedade africana na preservação da sua cultura.

*Rui Chadzinga Fraquichone

Texto extraido daqui

6 comentários:

Magus DeLirio disse...

Olá!

já passei imensas vezes pelo teu blog mas esta é a primeira que me atrevo a comentar. Realmente «a mulher moçambicana é abusada pelas multinacionais e não reage». Considerando que o termo "mulher moçambicana " foi aqui aplicado para as mais jovens, 14nhas e companhia, infelizmente este cenário continuará sempre pesente porque enquanto umas (muito poucas) tentam reagir, outras (a maioria)deixam-se abusar de livre e expontânea vontade. São os novos tempos...

X!mb!t@nE disse...

Obrigada pela visita, lamento apenas que não se tenha atrevido muito antes, Magus delirio.

Sou das pessoas que não concorda com a forma como a mulher, em geral, e a moçambicana, em particular, é "usada". Como poderei fazer ecoar a minha voz? Se mesmo neste canto pouquissimas mulheres o vêem?

Eis uma das razões de colocar este artigo aqui no blog!

SHIRANGANO disse...

Na verdade, a mulher é “usada” porque ser deixa usar. Muitas mulheres que aparecem semi-nuas nas publicidades e nos videoclips são “inatas mentais”, quer dizer, não passam de um bando de raparigas ignorantes que acham o facto de ter um corpo bonito é tudo e querem viver disso. Não olham para as propostas de emprego ou para ganhar um “caché” que chegam a ser indecentes.

Por isso, não podemos cometer um equivoco comparando-as com outras mulheres moçambicanas que são inteligentes independentemente da sua condição social, cor da pele, ou grau académico.

Mana Ximbita,Queres ver muitas mulheres por aqui? Promova um concurso de "biquinis", vais ver a adesão. ( hehehe...brincadeira...kkk)

Chacate Joaquim disse...

Usada pior é que ela gosta! não sei como chamar, inocente? ou oura coisa que estou a pocurar o adjectivo ideial...

Bjs

X!mb!t@nE disse...

Shir, infelizmente concordo contigo! Sozinha ou acompanhada das Vasikates nao poderemos parar esta horda: muita mulher nao se da o valor que tem e merece pelo simples facto de ser mulher, logo compara-las a algumas resulta num fracasso!

Essa do concurso, estou é a pensar faze-lo no sentido inverso. Quem sabe se eu e outra mulheres nao concorramos a tal concurso? O das mulheres com M!

X!mb!t@nE disse...

Gosta, CJ? Acho eu que elas nem sequer sabem o que estao a fazer. Nao tem noçao de nada, cabeças ocas!