terça-feira, 25 de novembro de 2008

Festas dos putos

Alguém se lembra de como eram as nossas festas infantis antigamente? Aquelas em casa, mesmo, em que os adultos ficavam conversando na sala, enquanto as crianças “se acabavam” a brincar por todos os cantos? Sozinhas ou entre si, sem bábás, sem brincadeiras pré-programadas com pula-pula, palhaços, pintadores de caras, carrocel, etc.?

Quando você, como convidado, chegava à porta, ninguém exigia um convite para depois procurar, na lista, o seu nome e de seguida indicar-lhe uma mesa. Na hora do “Parabéns a você”, não eramos obrigados a “play-backarmos” o jingle que o DJ toca: um coro ruidoso e destoado era entoado pelos convidados!

Lembra-se que o corte do bolo era no fim da tarde? Sim, um pretexto para que as luzes fossem apagadas e que na palidez das velas todos olhares se viravam para esse momento mágico. Você se lembra? Nessa altura, os mais corajosos faziam discursos e desejavam longa vida ao aniversariente e até se entoavam os cânticos habituais lá de casa sem receio de envergonhar os babados pápás que tinham convidado o chefe à festa?

Recorda-se? Os humildes, mas preciosos e apreciados, presentes eram entregues ao próprio aniversariante e não amontuados numa mesa preparada para o efeito e que depois fazem o aniversariente nem sequer saber quem lhos tinha ofertado, se você se esquece de lá pôr um cartão? E depois da festinha, não haviam lembracinhas ou brindes! No máximo, dava-se um pedaço de bolo ao mano mais velho que nos tinha vindo buscar?

Pois é, nada que se assemelhe às mega produções que vemos hoje em dia: tudo mudou! Também, até ocasiões que não devem, na minha modesta opinião, merecer tanto salamaleque são pretexto para eventos do calibre de um casamento (esses também ostentivos demais)! Veja-se que uma simples cerimónia de graduação, da creche, que mais não é do que uma despedida, é razão suficiente para merecer um buffet 5 estrelas!

Nós, pais, é que promovemos esses eventos e, o engraçado, é que os nossos filhos não acham a minima graça. Esta nossa atitude, talvez se possa justificar como sendo uma forma de os compensaremos pelas nossas frequentes faltas e, também, sejamos francos, rasgados elogios e palmadas nas costas, pelo sucesso da party, engordam o nosso ego.

Formúlas mais simples e eficazes podem surtir o mesmo efeito e, neste tempo de crise, até um bolo e uns refrigerantes levados à escola ou a creche, têm maior impacto do que festanças em que muitas vezes os miúdos nem sequer conhecem os convidados. Mas, as nossas festas, animavam ou não? Então que tal resgata-las?

12 comentários:

Nini disse...

Os tempos mudam e as pessoas não querem ficar alheios a nova realidade. Não sei muito bem como são as festas para crianças cá em Moçambique, pois passei quase vinte anos na Europa (Portugal, França e Alemanha). Mas aquelas que tive oportunidade de presenciar chegam a ser exageradas e completamente diferentes das que vivi na Europa, tendo em conta a faixa etária dos aniversariantes.

Olha ximbitane, se fores aprestar atenção nesses eventos infantis vais ver que se trata de um pretesto para os adultos (pais, tios avós, amigos...) poderem ”rebentarem-se”, trocar uma conversa, beber aquele vinho ou cerveja, etc. A festa não chega a ser pra crianças, os adultos tomam conta dela.

Há dias a Nicky recebeu um convite para festa de um ano da priminha da parte do pai, não imaginas a festança, tu olhavas para a grandeza da cermónia e vias que aquela não era uma festa para os priminhos e amiguinhos da aniversariante, mas para os acompanhantes apesar do convite aparecer apenas o nome da bebé. Havia um grande buffet, alguns barris de cerveja, garrafas de vinhos, wisky e espumante e muita ostentação, olhei para o meu marido e perguntei: - tens certeza que se trata apenas de festa de um ano ou juntaram com outro acontecimento importante para família? Acredite Ximbitane, era apenas aniversário de uma ano.

Eu acho que os pais devem começar a entender que as crianças querem apagar a velhinha com os amiguinhos por perto, muitos refrescos, muitos bolinhos, biscoitos, muitas batatas fritas, nic-nack, balões e música que elas adoram e nada mais.
Outra coisa que notei nos moçambicanos é que possuem uma “mentalidade fechada” e deve ser fruto do colonialismo português. Estão mais preocupados com os elógios dos acompanhantes( principais convidados) e não com a alegria das crianças...bjs

X!mb!t@nE disse...

Poxa, Nini, acertaste na mosca! E sobre isso mesmo que me revolto, ostentaçao quanto baste no lugar da verdadeira e inocente alegria das crianças.

Júlio Mutisse disse...

Xim, a modernidade está a acabar com muitas coisas que caracterizaram a nossa meninice. As nossas relações no geral estão a ficar impessoais...

Concordo em grande medida com a Nini. Mas, no geral, os laços de afecto, companheirismo etc, que de desenvolviam nos murros dos prédios em que crescemos, nas mangas com água e sal e nas festinhas puras de sentimento estão a acabar. Os jogos de vídeo, os chats na net e através dos telemóveis, as séries televisivas etc,, substituiram os berlindes que jogávamos, as escondidas (sem intenções é claro) e outras formas de jogos que a nossa criatividade desenvolvida nas dificuldades da vida ajudava a criar.

Por isso temos o cúmulo de festas de criança com lugares marcados e os presentes amontoados num canto. Corta-se por aí um contacto mais próximo entre o aniversariante e os felicitadores. Um presente na maior parte das vezes escolhido, em nome da criança, por um adulto que não entende nada das NOVAS brincadeiras de criança etc.

É o sinal dos tempos. Quando a festa é em casa os adultos enquanto se encharcam de bebidas as crianças estão concentradas num qualquer vídeo jogo já nem se espantam (os adultos) com o silêncio ou menor bagunça...

SHIRANGANO disse...

Oooh… que saudade daqueles tempos! Realmente as coisas mudaram, vocês têm razão. Actualmente as festas de aniversário dos putos parecem festa de casamento, tudo para agradar o colega, o chefe e os familiares. Os putos são obrigados a vestir fato e gravata. No nosso tempo, apenas queriamos fato completo (a cor do calção igual a da camisa), sapatos que acendia a noite, e sair da festa com a roupa suja de feijão, arroz e bolo. Hoje em dia, os pais “entulham” os filhos de banana e outras coisas em casa para não envergonhar os papás ou não serem conotados por “mortos de fome”. Os miudos chegam a festa sem vontade de brincar.

Concordo com Júlio, as brincadeiras também foram substituidas. Antigamente, depois do banho obrigatório das 17h, os putos assistiam Rua Sesamo e Carrocel, becas e companhia que eram programas educativos, aprendiamos a ler e contar. Depois do programa desciamos (claro com um bocado de pão/mandioca do lanche) para jogar escondidas, cabra-cega, xuta-lata, etc. Agora os putos querem ver Tom e Jerry, Bem 10, Spiderman, Pamela Anderson e outras peladas entre outras violências. As violências que assistiamos eram Rambo, Comando e Bruce Lee, eu como queria ser Bruce Lee! Que Saudade!
Ia-me esquecendo da brincadeira de “papá e mamã”, “pito e pita”, roubar arroz em casa para contribuir na brincadeira do sábado a tarde, fazer comida de area e casamentos de brincadeira com a vizinha do prédio/bairro.

Mana Ximbitane brincaste de papá e mamã?
Hoje brincamos de verdade.

Júlio Mutisse disse...

Shirangano,

A brincadeira do casamento, digamos, só animava se a noiva de brincadeira fosse aquela que, no nosso imaginário infantil, merecesse aquele estatuto.

Lá do Alto-maé (minha porta de entrada à cidade qnd cheguei de Manjacaze) conheço casos em que "casamentos de brincadeira" mais tarde, deram ou quase davam em casamento. Eu fui lento (também era um mugaza matreco na época) a minha noiva de brincadeira, quando chegamos aos 14/15/16 (eu a viver noutro bairro) virou namorada de outro amigo/vizinho da época e, até onde sei, são felizes (ou pelo menos estão juntos) até hoje.

Bons tempos aqueles, em que fazíamos os nossos próprios brinquedos, dos carrinhos com rodas de lata (dos refrescos que bebiamos e não deitávamos fora na primeira esquina) ou esculpidas da mafurreira da esquina (isso era para os mais criativos como eu que já traziam essa experiência de outras vivências); o xingufo.

Bons tempos aqueles em que aumentavamos o nosso espólio de berlindes rapando dos outros com alguma astúcia pelo meio. Bons tempos aqueles em que o sentido de pertença a um local/bairro/quarteirão se cimentava pelo convívio diário, nos desafios de futebol (rapazes), neca o segunda terça (as meninas)...

Bons tempos aqueles em que as nossas festas eram festas mesmo. Uma vez chamado eras parte da coisa e ninguém reparava se o calção está ou não roto de um lado. Importava era estar ali. Festejar cantar parabens e comer bolo de CREME (coisa rara).

Perguntem aos nossos filhos se sabem fazer algum brinquedo ou, ao menos, se sabem montar pilhas no remoto do carrinho ou da boneca. Por nossa culpa e pela protecção que damos pelo tempo em que vivemos é provável que nem conheçam o menino da porta de frente, quanto mais do prédio ao lado.

That's it.

Xim,

Não consigo te ligar...

SHIRANGANO disse...

É verdadeiramente verdade Julio Mutisse, bons tempos que lá se foram. Quando tocaste o desafio de futebol, fez-me lembrar dos desafios ingénuo que tinhamos na zona. Compravamos sumos em pó que se vendiam na altura, faziamos 20 litros de sumo e montava-se três equipas para disputar o “precioso liquido” em pleno dia de chuva. Grande massacre dentro das 4 linhas improvisadas, balisas de pau, descalços e sem arbitro. Vencia-se o desafio, antes do banho tomavamos conta do sumo, farto do sumo metiamos a cabeça no balde de sumo, satisfação total!

Chegavamos em casa todos sujos e alegres recebiamos umas boas chineladas. Dia seguinte estavamos lá para mais uma loucura. Ah bons tempos!

X!mb!t@nE disse...

Muthisse, já estou com umas coisas na manga sobre as novas amizades infantis: video games, chats, televisao e etc.

X!mb!t@nE disse...

Bota saudade nisso, shir! E, hei, também fui criança e no fundo ainda há uma criancinha em mim, hehehehe

Nini disse...

Hehehe… estava apreciando os comentários e achei engraçado.
Shirangano, olha para tua idade! Já te sentes do outro tempo? Hehehe...que lata!

X!mb!t@nE disse...

Oh Nini, não aproveites os teus conhecimentos de causa para "aleijar" o Shir. Também, com uma coisinha linda como a Nicky só um maluco não se sentiria um grande homem. Poupa o mocinho, tá?

SHIRANGANO disse...

Nini,ahé ahé ahé ahé...vais a panhar "tatau" quando chegares a casa.

Afinal não sabes que eu recebi o testemunho da geração de 1975 ante a modernidade vir estragar tudo. Quando eu ainda estava no colo vi Samora.

Obrigado mana Xim por me defender.

X!mb!t@nE disse...

Héhéhé, Shir e Nini, não é para andarem as turras lá em casa!