sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Peregrinos de 6a feira

5ª feira, 22h, no passeio da antiga pastelaria Colmeia, corpos deitados no chão, cobertos por capulanas, mukhumes e/ou papelão dormem indiferentes ao burburinho dos carros e transeuntes que por ali passam. Serão os famosos molwenes? Rapidamente encontro a resposta: não, não são não.

São cidadãos moçambicanos que habitam em bairros da periferia e que tudo fazem para estarem no centro da cidade nas primeiras horas do exercício comercial. Quererão eles fazer compras semanalmente? Imperativamente à 6ª feira? A resposta também é redondamente negativa. Trata-se dos peregrinos da 6ª feira, os mendigos.

A Comunidade comercial muçulmana moçambicana tem oferecido todas 6ª-feiras, num acto de fé, esmola ou pão aos pobres. Este é acto é de louvar tendo em conta que muitos moçambicanos há que não conseguem ter na sua mesa um pedaço de pão. No entanto, esse gesto também é de reprovar pela forma como é feito pois fica a parecer que o objectivo único da comunidade é dar e não dar a quem realmente precisa.

Acredito que muitos me cairão em cima pela forma como exponho o assunto, mas é como o vejo: jovens com capacidade para andar rapidamente e com forças nos braços para trabalhar é que recebem o pão das 6ª. Infelizmente, muitos aproveitam-se dessa caridade e “passam a perna” aos que realmente merecem e precisam: idosos desamparados, portadores de deficiência, doentes crónicos, etc.

Preocupa-me sobremaneira a forma como os mendigos, sobretudos os idosos e doentes crónicos são tratadoss, corrijo, NÃO são tratados. Estamos em momento pós-eleições e não vislumbrei, em nenhum partido/candidato, preocupação para com esta camada social: será porque estes não tem cartão de eleitor? Será porque estes parecem não estar conscientes dos seus direitos, deveres e obrigações?

Que experimentem dar um prato de comida por cada refeição do dia, um local seguro e de descanso, espaço de lazer e de actividades criativas e assistência medicamentosa, terão nos peregrinos de 6a feira (mendigos, idosos e doentes crónicos abandonados) eleitores fiéis nos próximos pleitos eleitorais!


10 comentários:

Bayano Valy disse...

cara ximbitane,
não sabia que os mendigos peregrinos passavam as noites de quinta ao relento para poderem começar cedo com a sua tarefa de mendigar - posso ser um mocho mas não sou madrugador. esta é nova.
eu aconselho a prática de caridade, mas não nos moldes como é feito entre nós. para já concordo com o teu repúdio. um dos males é o facto dos asiáticos em frente dos negócios serem show-offistas e fazerem a coisa como tradição e não justamente como um acto de fé. já se sugeriu a criação de um "banco" ou depósito, se quisermos, de caridade para se fazer uma distribuição eficiente da mesma, mas os meus confrades asiáticos não querem ouvir. que fazer?

Egídio Vaz disse...

O meu interesse aqui era de ver a presença do Estado. Se não "Dá", pelo menos devia ajudar aos que "dão" a dar melhor.
O ministerio de tutela e suas organizações especializadas (INAS) deviam prestar maior atenção a esses factos.E que tal, regulamentar aessa prática?
A questão para mim é: um pão para cada mendigo justifica tanto sofrimento?

X!mb!t@nE disse...

Bayano, acontece sim! Ha até um roteiro pré-estabelecido para que nao se perca o pao pois ha lojas que abrem mais cedo do que outras, entao ha que ganhar "time" para se passar por todas elas ou a maior parte delas.

Doi-me imenso estar dentro de uma loja, por volta das 10 e picos, ver chegar um cortejo afaimado e suado de idosos /ou deficientes fisicos e nao terem o tal pao porque os ageis jovens ja os meteram no seu saco.

Enerva-me ainda mais saber que esse pao, pegue pelos jovens, vai ser revendido por uma bagatela para a compra de uma "exportaçao de thonthontho" ou cartuchinho de droga!

X!mb!t@nE disse...

Egidio, sei de iniciativas por parte da MMAS, Conselho Islamico (se nao me engano na designaçao), APOSEMO e outra que nao me ocorre que visava a recolha de todos os produtos das lojas para posterior distribuiçao.

O ilustre deve, e muito bem, saber que esse tipo de gesto/atitude deve primeiro se fazer notar no proprio bolso! O que acontecia é que a distribuiçao era dirigida e os que nao o adquiriam voltavam as portas das lojas.

Os comerciantes, esses, preferiram entao voltar ao anterior sistema de dar o pao à porta e... quando o stock acaba, paciencia

amosse macamo disse...

ha muita coisa aqui no meio:
o o primeiro, 'e logicamente o desejo de ser visto a dar, com as implicacoes politicas, sociais e economicas, segundo as religiosas, para descarregar a "consciencia, dando a quem nao tem", quando se rouba com precos aleatorios a quem tambem nao tem, mas 'e obrigado a pagar. ainda no religioso como acto de compaixao velado, porque me questiono, porque nao institucionalizar esta pratica.
(klembrar que ha quem chora, por pisar uma flor, para descarregar o facto de ter sido apatico, ao assistir impavido, alguem que contava com a sua ajuda)
terceiro, a mao invisivel do Estado atraves da fantasma accao social, que em termos de acao, so enche o bolso de quem esta obrigado a prestar, outra e a ultima tem a ver com o proprio mendigo e questiono: quem 'e mendigo? porque os demais que vejo, sao capazes de ganhar a sua vida pelo trabalho, outros, simulam enfermidades e ha quem ate ameaca, para ter a esmola....ha tou cancado pa

X!mb!t@nE disse...

Tristemente concordo com o teu ponto de vista, Amosse!

Nini disse...

Concordo que há cada vez mais mendigos e oportunistas nas ruas. Como bem foi dito, tudo isso deve-se a falta de uma instituição competente capaz de criar condições propícias para o apoio a essas pessoas. Creio também que os comerciantes asiacticos são os principais promotores deste fenomeno. A religião diz para ajudarmos o próximo, mas acredito que isso está a ser interpretado erradamente. O que adianta dar um pão as sextas-feiras e os restantes dias as pessoas passarem fome?
Eu acho que é errado dar esmola (a maneira que os comerciantes dão) porque estamos a contribuir negativamente para o desenvolvimento de mais mendigos.

É necessário criar-se uma instituição que envolva os próprios mendigos de modo a produzirem algo para a sua própria sobrevivência. É intrigante como o nosso governo não se preocupa com o seu proprio cidadão.

Vivo num prédio em que por baixo tem um supermercado, não queras imaginar a fila nas sextas-feiras que até chegam a impedir a passagem de qualquer morador do prédio.

X!mb!t@nE disse...

Concordo plenamente contigo, Nini, o Governo balda-se para esta camada da populaçao tao necessitada. Por mim, o Acçao Social, devia fechar as portas ao invés de estar a destruir um lar de idosos para construir um novo ministerio.

Por sua vez, os comerciantes também deveriam mudar de postura. Sei de pessoas que recolhem o maximo de pao para o comerem nos dias subsequentes, mas, venhamos e convenhamos, passado algum tempo, o pao estraga-se.

Nos também, entanto que cidadaos pacatos, devemos ter outra atitude face aos pedidores de esmola, sobretudo nos semaforos. Mas aquela gente joga de tal forma com a nossa consciencia que poucas vezes reagimos. Espero voltar a falar disto em outra postagem.

Bjocas a minha sobrinha virtu-real, Nicky

Chacate Joaquim disse...

A mendicidade é promovida pela falta de organização das instituições que deviam zelar por esse problema. afinal na cidade de Maputo temos quantas pessoas que necessitam desse apoio? quem são, em termos de nomes, local de residêcia, idade, estado civil? porque aí começariamos a identificar quem merece e quem é um simples Massopene (um consumidor de Nthonthontho) com idade de ir trabalhar.

X!mb!t@nE disse...

Boa bola essa, Chacate! Justamente por nao haver um cadastro dos verdadeiros necessitados acabamos vendo pessoas com força para trabalhar a comer de graça e a custa do suor dos outros