Sou Josina, heroína do dia-a-dia Cedo desperto da esteira aconchegante Mal rompeu o dia, busco a capulana estirada no ralador Silenciosamente, abro a porta da minha cubata Pego na lata e vou ao fontanário da zona Carto agua, uma, duas, três vezes Putz, perco a conta das idas e vindas No canto do quintal, junto a lenha Sopro as cinzas do lume, reavivo a chama da esperança Puxo pela xicandarinha queimada e encho-a de água São cinco horas! O galo canta! Apressadamente varro o quintal Recolho a roupa suja e ponho de molho no balde Oiço o arrastar dos chinelos do meu homem Corro pra latrina, pego no balde e deito a água fumegante _ Papai, papaye! Já tem água di banho. Procuro um xiguema de pão para o chá madrugador Na tigela de plástico arrumo o xiquento do jantar Embrulho tudo delicadamente, com muito amor _ Antoninho? Antoninhou? Acorda, mane, vais trazar na scola! _ Maria? Mariazinha? _ Mamã!
Ouve-se a voz melosa da minha pequena _ Pega na mbenga, vamos moer timbawene pra mabadjias! Feito barata tonta, corro dum lado para o outro O tempo, esse corre velozmente Cedo tenho que chegar a contrução onde vendo pão com badjia Antes passo pela padaria para gwevar o pão As sete e picos, quando os portões da obra fecham, volto a casa Minha filha pila o amendoim Panelas pra que te quero Faço xima, frito o carapau 10, hungelo o amendoim Doze em ponto tenho que estar de volta a construção Num cesto arrumo as panelas, as tigelas e colheres Uff! A sirene toca, estou diante da obra Trabalhadores suados e famintos aproximam-se _ Mamane, tem o qué hoje? _ Xima com caril de mandoinha com peixe, papaye. _ Dá lá uma doze! E recomeça a correria, tigela pra aqui tigela pra lá É assim que ganho o pão! Felizmente hoje consegui vender toda comida Faço as compras do dia seguinte no dumba nengue Cansada, retorno a casa a meio da tarde _ Estou com fome, mamã.
Queixa-se o Antoninho, meu filho traquina _ Come aquele xiquento que guardei debaixo do armário. Pego no balde de roupa e começo a lavar Corto a nhangana fresca e preparo a refeição da família Enquanto isso, engomo a roupa do homem Não tenho dia de descanso e nem feriado Sábado vou ao canto coral e no domingo à igreja E a noite tenho que estar quente e disposta Sou ou não sou uma heroína? Eu sou Josina, heroína do dia-a-dia!
Capulana, mukhume, Xivite xa vovo, Minhembeti wa Maria, Xirozana Tantos apelidos pra ti, Lady capulana! Um pano rectangular de algodão ou de fibras sintéticas Rica em cores vibrantes, motivos florais, animais, abstractos, reais És rainha na vida da mulher Desde tenra idade, meninice, adolescência, juventude, a acompanhas Com ela vais crescendo, aprendendo, vivendo e sofrendo
Cingida a cintura, és testemunha impávida e serena Do despontar dos seios da pequena Elisa Serves de penso higiénico das suas regras Cobres o sorriso envergonhado e tímido da jovem adolescente Observas, como só tu sabes O abraço ladrão do jovem Romão Os beijos molhados As carícias ousadas e atrevidas Enxugas o sangue do romper do seu virgem hímen
Soberana, acompanhas a mulher pela caminhada da vida Ao longe ouvem-se nkulungwanas! _ É a família Zitha chegando! Vem roubar a nossa Elisa! As mamanas cantando rebolam e remexem as bundas ao som de cânticos alegres Vermelho, rosa, amarelo, um arco-íris amarrado nas cinturas esbeltas e rechonchudas Lá estas tu, lady capulana! _ Que venha a mamana Teresa! Enrolada no corpo roliço da comadre desfilas e todas outras comadres invejam És bênção que reconforta o coração da mãe que sua menina vai perder.
_ Hululululu! Lililililliiiiii… Mais nkulungwanas ecoam pelo quintal! As mamanas da cozinha suadas e sorridentes vem espreitar curiosas No muro de espinhosa, aglomeram-se outros tantos curiosos Raparigas de capulana desbotadas pelo sabão bingo, rapazes de barba incipiente As fofoqueiras da zona, todos, todos querem ver o cortejo da boda Aos ombros da família Zitha sai o baú da recém-casada repleto de capulanas _ Hululululu! Lililililliiiiii… A família rodeia Elisa que cabisbaixa, parte para seu novo lar Seu vestido de batik rosa arranca elogios, que galante estás, lady capulana!
Esticas-te para albergares o ventre redondo de Elisa que amadurece lentamente Logo no parto, acolhes o recém-nascido Serves de fralda, de toalha, de lençol do novo rebento dos Zitha’s Feita insingo, seguras firme o pequeno traquina no regaço da nova mamã Proteges o petiz adormecido da orvalhada fresca da manhã Cobres-o dos raios do sol picante do meio-dia No regresso a casa, escondes seus olhos inocentes dos segredos da noite escura Suada e cansada, enxugas suas lágrimas de dor, de alegria de ser mulher Com ela embalas o primeiro filho e todos os demais que ela pare.
_ Nhandayeyo! Faleceu o cunhado Siza, irmão do papá! As correrias, mala para que te quero Aos prantos, Elisa arranca-te do baú Xivite xa uthomi que ajusta bem a cintura Num zás trás, o pequeno Félix é arrancado do chão e amarrado pelo insingo O xidjumba arrumado as pressas é posto na cabeça, a cubata fechada violentamente _ Vamos mamã Celina! No quintal do tio Siza, lá estas tu capulana Apagada e lúgubre, enxugas as lágrimas teimosas que rolam pelas faces Uma tia atenta cobre o defunto com uma capulana ancestral Oh lady, viraste mortalha!
Capulana, capulana És nobre, és rainha, és linda Na mala, no baú, na carteira, amarrada à cintura Na alegria, na saúde, na doença, na morte Majestosa, sempre dizes presente És objecto de juras de amor eterno Das grandes damas da sociedade Das mamanas dos dumba-nengues Tu és e sempre serás uma lady, a lady capulana!